Já faz um tempo
que o que sinto é cansaço, da vida mesmo. Chegar aos 50 anos inevitavelmente
evoca a célebre fala de Glauber Rocha, de que aos 43 já tinha vivido tudo o que
tinha pra viver. Mesma sensação, sem a contraparte das realizações. Mas isso
não é uma carta de suicida. Suicídio é ter nascido no Brasil, vivido a abertura
política e a redemocratização, acreditado em alguma espécie de futuro (crença
fatal a qualquer jovem com alguma saúde mental) e agora encontrar o passado.
Não vou sair, é certo, porque sei que não há saída, e aqui é a luta. Entendo os
que precisaram ou escolheram sair. Mas acho desrespeitoso que, tendo condições
para tal, fiquem mandando selfies de
sua nova vida no exterior. Porque muitos não conseguem sequer sair da favela em
que nasceram. Então tudo isso dá um enorme cansaço, e não há o que fazer, a não
ser continuar.
Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.