Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 4 de junho de 2026

ZELIG - Renato Rezende

Como se não bastasse 
ser gente 
é preciso ser também 
médico, professor, gerente. 
Tudo bem. O Sr. Souza 
é gerente de compras. 
A Dona Raimunda 
tem como profissão 
alugar o corpo. 
Me perguntam o que sou. 
Poeta e pintor, eu digo, 
ou aprendiz de mendigo. 
(Algo que de si mesmo 
duvida.) 
Meu nome é Zelig 
e às vezes São Francisco. 
Indefinível, sem qualidades 
disassocio-me do meu corpo 
que alguns chamam de veículo. 
Me despeço do meu destino. 
Sou metade vazio 
e oco no meio 
(a melhor parte de mim mesmo 
onde sou mais inteiro). 
Me espero no que restará 
do fundo do meu próprio abismo. 
  

O sol no mar infinito.     

                                                      


Rio de Janeiro, 7 de março de 1997 
 

 REZENDE, Renato. Passeio. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001, p. 35-36. 

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