Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
a morte (sentimentos confusos)
A morte desafia as definições bem assentadas de
dicionário. Ela é um incômodo, um desconforto, um espinho fisgando a carne e afetando a alma. Uma dor, sobretudo, um fantasma rondando a lembrar que o fim de
todos é debaixo da terra, roídos por vermes e sem agasalho ou proteção em
noites de chuva. Alguma coisa da vida ou da consciência sobrevive à morte
física, orgânica, à morte do corpo? Se sim, haverá horror maior que morrer? Claro
que há: o catálogo de horrores desse mundo aquém-túmulo parece infindável e inesgotável,
mesmo porque a imaginação humana não cansa de buscar excitação em fantasias
macabras e aterrorizantes. Mas a morte não pertence ao domínio das
monstruosidades fabricadas pelo homem, que não obstante estão intrinsecamente
ligadas a ela. A morte, primariamente, pertence ao domínio da natureza. Não pode
ser evitada. E dói, como se fizesse parte da vida.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Orides Fontela
POLICIAL
Culpados
ou
cúmplices
nunca temos
álibi:
por força, estamos
aqui.
FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio
de Janeiro: 7 Letras, 2006, p.297.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Orides Fontela: "excessiva vivência"
FALA
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
FONTELA, Orides. Poesia reunida. São Paulo: Cosac Naify: Rio de Janeiro: 7 Letras,
2006, p.31.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
a obra de arte no corredor
Minha resistência a exposições, em especial as de
grande apelo, como esta, é que elas são tratadas como arte, causam filas e frisson, mas na verdade funcionam como
cultura. O que há contra a cultura? Nada — desde que não assuma o disfarce de
arte.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
letargia
Minha miopia tem me feito enxergar tudo meio lento —
os Correios, o retorno das ligações dadas, a internet, as operações básicas da vida. A paciência
precisa ser de Jó, mas a ansiedade é moderna, contemporânea, não é fenômeno que
se possa aferir com parâmetros bíblicos. Leio sobre meditação e técnicas de
respiração, mas é preciso pagar para se iniciar nesses saberes milenares — quem
sabe os mesmos que permitiram a Jó esperar tanto —, além de sair de casa, fazer
contatos, mandar e-mails, dar telefonemas, encontrar espaço na agenda, coisas
que via de regra mais chateiam que acalmam. Tento imaginar o mundo em que essas
técnicas de desacelaração foram criadas, forjadas, elaboradas. Não consigo. Enquanto
isso o país parece estar caminhando para um nó, cujo desfecho vai ser certamente
desagradável.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
sábado, 7 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
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