Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

azul é a cor do deserto... no mar

O hífen, apartando palavras com a aparência de uni-las, me fez pensar nos números primos. Aí descobri que há um livro no mercado, A solidão dos números primos, que parece interessante e talvez venha a ler. Porque sempre gostei de estudar, ainda aquilo que eu parecia entender, como a matemática, para descobrir bem depois que havia entendido apenas a superfície, as operações básicas. Os números servem-me apenas para atormentar, lembrar contas, fazer cálculos inúteis acerca do que não me interessa: colocar tudo na ponta do lápis, como imagem de vida planejada, regrada. É-me impossível fazer planilhas domésticas, como aquelas receitadas pelos quadros do Fantástico. Minha competência permite-me apenas alinhar palavras com a ponta do lápis, ou dedos, e sempre que o hífen me perturba consulto o dicionário. Não sei se dispensar os números pelas palavras foi escolha acertada, como entre par ou ímpar. Mas é que nem mesmo me ocorreu, alguma vez, que havia escolha, eu sempre quis a beleza. Que há beleza nos números e suas complexas coreografias é mais do que certo, como dois e dois são..., apenas eu nunca vi, vislumbrei. Então é lógico que uma parte expressiva do mundo está definitivamente fechada para mim, como um quarto agora escuro cuja chave foi-me de relance oferecida, e eu não alcancei discernir bem o que era então. Prestava atenção em outras coisas, na beleza possível das aulas de geografia: azul é a cor do deserto no mar: a citação do livro enfadonho em meio a descrições inutilmente armazenadas na memória, e que agora a memória recompõe, porque nunca a esqueceu, foi um prelúdio de minha disposição favorável às palavras, que eu amo unir como se pudesse criar uma outra geografia, a geografia possível de meu ser, hesitante, alheio a hífens e a tudo que diz respeito à memorização de regras e normas, por saber que qualquer coisa só se sabe pelo contato íntimo. 

clique na imagem para ampliar. fonte: internet

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