Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

libertação

Faz muito tempo que assisti Perdas e Danos (Damage, Louis Malle, 1992), com os ótimos Jeremy Irons e Juliette Binoche. Um filme para se encontrar o que quiser, sem pedantismo ou tintas moralistas. A lembrança do filme veio a propósito de uma conversa de fim de dia, acerca da hipocrisia. Então aventei a hipótese de que deve haver, na vastidão do Universo, seres superiores a nós, que desconheçam esse mecanismo comezinho e humano que é uma espécie de trapaça que se faz com o próprio pensamento por se acreditar que assim se vive melhor. Numa aula, uma aluna brincou dizendo que era bom os professores não serem capazes de ler os balões de pensamento. E vice-versa. Mas essa mascarada cansa. A hipocrisia é exatamente uma trapaça que a pessoa faz consigo mesma, julgando obter algum benefício na balança das relações. No entanto, o que está em jogo é outra coisa, são as forças que atravessam os seres: quanto maior o recurso à hipocrisia, mais fraco o ser. Voltando ao filme, as cenas finais evidenciam que é preciso assumir a responsabilidade pelas escolhas, não importando o tamanho do dano. Os fortes conseguem fazê-lo. É possível vislumbrar, quando as faces se desnudam, que ali não havia espaço para a hipocrisia, nunca houve, porque há algo de cálculo, de premeditado nela. Esse cálculo torna ambíguas as relações, e é muito salutar poder despojar-se disso, como quem sacode a poeira da rua ao chegar em casa. 

3 comentários:

Canto da Boca disse...

Gostei muito da racionalidade empregada na sua análise e reflexão acerca do filme, esse recorte:"quanto maior o recurso à hipocrisia, mais fraco o ser", é fabuloso! Vi o filme há muito tempo atrás, está na hora de revê-lo!

Mariana disse...

Obrigada. Este filme tem uma força para além da trama, dada pelos intérpretes, especialmente a Juliette Binoche.

sonia disse...

Vi esse filme na pré-estréia, no Shopping Iguatemi, em São Paulo. Marcou tanto que me recusei a vê-lo novamente. Acho que não ia aguentar ver novamente o tufão se aproximando, pois era de se esperar que tanta falta de bom senso ia acabar dando naquela tragédia.