Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Pertencer - Clarice Lispector

“Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano no berço mesmo já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pele menos eu pertencia um pouco a mim mesma. O que é um fac-símile triste.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de ‘solidão de não pertencer’ começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso o que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertencesse. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos ― e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força ― eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Embora eu tenha uma alegria: pertenço, por exemplo, a meu país, e como milhões de outras pessoas sou a ele tão pertencente a ponto de ser brasileira. E eu que, muito sinceramente, jamais desejei ou desejaria a popularidade ― sou individualista demais para que eu pudesse suportar a invasão de que uma pessoa popular é vítima ―, eu, que não quero a popularidade, sinto-me no entanto feliz de pertencer à literatura brasileira. Não, não é por orgulho, nem por ambição. Sou feliz de pertencer à literatura brasileira por motivos que não têm a ver com literatura, pois nem ao menos sou uma literata ou uma intelectual. Feliz apenas por ‘fazer parte’.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.110-111. Crônica publicada em 15 de junho de 1968.

6 comentários:

sonia disse...

Fiquei aqui com a respiração presa durante a leitura. Ela consegue dizer o que eu sou, o que eu vivo, então pensei que pertenço ao menos à classe de pessoas que sentem e vivem como Clarice! Viu só, Mariana? A gente sempre pertence a alguma espécie. Não somos únicos nem em nosso "não pertencer"!!

Mariana disse...

Sônia, eu não conhecia essa crônica até ter assistido a peça "Simplesmente Eu, Clarice Lispector", com a Beth Goulart, a melhor coisa que vi em teatro desde que cheguei aqui. Então eu fui atrás e li, reli, voltei a ler. A crônica me voltou esses dias, porque ela me pareceu ir muito além do relato pessoal e bordejar uma questão fundamental da vida de qualquer ser humano, mesmo quando não tenha consciência disso: o que move o destino de alguém. Por exemplo, Einstein: ele pertenceu à ciência. Os cientistas costumam ter questões às quais pertencem. Não estou dizendo que são livres de angústias.

Então isso que a Clarice coloca talvez seja o meu grande enigma. Pois eu não consegui pertencer à ciência (tive oportunidade para isso, uma boa oportunidade), não consegui pertencer a Deus, não consegui pertencer à minha família. Vagamente reconheço que pertenci, desde muito menina, aos meus livros e cadernos, e isso de certa forma me traz algum alento, embora eu ache que não esteja dizendo o mesmo que a Clarice. Quando postei aquele vídeo do Philip Glass estava sem perceber dizendo isso: ele pertence à música que ele criou e cria. Picasso pertenceu às suas telas. A lista seria imensa: obstinados que abraçaram uma causa, uma coisa, um destino, e isso frutificou.

Então me dei conta de que toda vez que assistia uma reportagem, lia uma matéria sobre alguém em seu ateliê criando, sobre aquela pessoa que deu sua vida a uma causa, eu estava, sem saber, lendo essa crônica da Clarice. Nunca quis ser médica, psicóloga, advogada, dentista: eram profissões que não me prometiam nada, da forma como eu então as via. Mas observava o relato dos outros (funcionário público de dia e poeta à noite; médico, diplomata e escritor; médico sanitarista e escritor etc.), de forma que comecei mesmo a me ver como inútil.

Eu me sinto vagamente pertencendo à literatura, mas até agora isso pouco frutificou, pois a literatura é fonte imensa de angústias. Preciso voltar à força dos meus caderninhos.

Luiz disse...

Queria apenas dizer que sua resposta Sônica ficou tão bonita e angustiante que, por si, valia um post. Beijos!

Mariana disse...

Luiz, então, estou aqui no ES, e confirmo algumas coisas do que disse na minha resposta. Obrigada. Beijos!

mirlaoliveira disse...

Sou professora de Projeto de Vida numa Escola de Tempo Integral e hoje planejando a minha aula para a semana me deparo com o seguinte tema da aula: De onde eu venho? Daí mais adiante como sugestão de leitura veio essa crônica maravilhosa de Clarisse "Pertener". Nunca tinha lido e a cada parágrafo lido conseguia sentir a expressão de alguns alunos antes mesmo de acontecer a aula. Sinto que será uma semana de muitos relatos familiares.

Mariana disse...

Parabéns pelo trabalho, vai ser ótimo, esse texto da Clarice é uma verdadeiro achado. Bjs.