Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

rock

Não saberia dizer o que é o rock, em sua essência, se alguém me perguntasse, ouvinte amadora que sou e também restrita. Mas acho que consigo dizer o que não é rock. A memória desse estupendo movimento musical, dos grandes talentos que o criaram e deram-lhe continuidade, está sendo sugada pelo apetite do consumo fácil e descartável. E de tão pasteurizado, diluído, mixado, o rock vai se tornando irreconhecível, convertendo-se em mero aditivo da publicidade e do espetáculo. Até aqui o texto. Agora o subtexto, embora fosse perfeitamente dispensável a alusão.

9 comentários:

Menina no Sotão disse...

Quando eu penso em rock, me sinto ultrapassada, velha, gasta. Sei lá. O rock de hoje é só barulho, falta aquela melodia cheia de entusiasmo que me movia no final da década de oitenta e que me fazia sonhar com horizontes. kkkkkkkkkkkkk


bacio

Mariana disse...

O que estamos assistindo hoje no universo do pop não tem precedentes. O rock, em suas origens, tinha qualquer coisa de revolucionário, de contestador. Esse monte de bocós que empunham microfone e guitarra para grunhir, ou as pats que entoam melodias melodiosas grudentas pastosas, estão contestando O QUÊ? Fazer barulho é coisa para quem tem competência.

Na verdade, esse post teve como único intento respeitar, modestamente, a memória do velho e bom rock. Um senhor, como disse certa reportagem, que completou 50 anos recentemente.

http://revistacult.uol.com.br/home/2010/11/o-som-da-furia/

Estão querendo escrever seu epitáfio depressa demais.

Abraço.

Zé alberto disse...

Olá Mariana, tantas vezes acordo ao som deste disco tão cheio de invenção e experimentalismo, dos Genesis, que não resisti a parar para tirar o chapéu a este seu post.

Abraço.

Cristiano Marcell disse...

Prezada Mariana

O consumismo louco em que nos encontramos há tempos faz com que percamos nossa identidade, é bem verdade. O bando de bocós que você sugere no texto, na realidade, apenas se dizem cantores de rock. O que cantam é uma mescla de ritmos indefinidos o qual alguns idiotas de programas de vídeo clip(MTV,TVZ,etc...)tem a coragem de chamar de rock.Eles cantam algo que deixou ser isso faz décadas.

Eu não sou radical como você que, pelo menos me pareceu no texto,perdoe-me se entendi mal, acha que o rock tem que ter um cunho revolucionário ad eternum assim como foi nos anos 60 e 70.

Agora certamente comungo da opinião de que tem, obrigatoriamente, melhor qualidade, tanto harmonicamente como no teor de suas composições.

Atualmente, o Rock in Rio não passa de um mega evento que coloca os ganhos à frente do próprio teor do que seria proposto pelo gênero musical. Existe um outro evento chamado SWU, se não me falha memória, que tem apresentações que, paticularmente,não me agradam, como Faith no More, Megadeth e outros, mas que estão totalmente dentro desse ritmo.

Saudades de The Police,Led Zepellin, Pink Floid, Eric Clapton, ...

Muita Paz!

Mariana disse...

Prezados, é isso. Como diz o nosso bom Caetano, que aliás sempre entendeu de rock, "alguma coisa está fora da ordem". Ou alguma ordem está fora da coisa. Felizmente ele não está na programação do Rock in Rio: sinal de que respeita o próprio trabalho e conhece o palco em que pisa.

Abraços.

Marcantonio disse...

Mas o Miltom estava lá (triste de ver, assim como a OSB!). E como o Miltom é mais discreto do que o Caetano, menos midiático, desconfio que o fato dele estar lá não tem nada a ver com saber o palco em que pisa. Afinal ele dá muitas pisadas fora de ordem...

Consola saber que não é apenas o rock que se entrega a essa tendência?

Parece que olhares mais alongados sempre flagram em ação uma estranha lei: os rebeldes, os revolucionários começam por fazer muito barulho, caminham para o zumbido e terminam como insetos satisfeitos, alfinetados na coleção do sistema. Ganham o Grammy, entram pra Academia de Letras, marcam os pés nas calçadas da fama. E na hora da fotografia dão um rugido sem som, fake do simbólico leão da Metro. Dadaístas hoje fazem comercial da Coca-cola e a gente desconfia que rebeldia é chantagem para efetuar trocas. Escapam, tirando-se um ou outro, os rebeldes que morrem cedo, talvez por impossibilidade de completarem o ciclo. Seria por isso que dizem que os bons...

Creio eu que Rock in Rio alude a algum tipo de afogamento... lucrativo. É um nome desprendido da coisa, e no qual a partícula mais importante parece ser Rio. E eles ainda têm a hipocrisia de dizer que estão ligando gerações. É, de repente estão mesmo.

Abraço.

Mariana disse...

É deprimente ver o Milton participando desse circo, e me vem uma dúvida: teria o Caetano sido convidado também? Se foi, recusou? Ou sequer foi cogitado? A OSB, como pode aceitar dividir o palco com essa coisa duvidosa chamada axé? E num festival autodenominado de rock? O mundo nunca precisou ser coerente, mas ao menos naquilo que se diz rebelde a incoerência precisa estar ancorada em outras bases.

Estou me lembrando da conhecida história de Bob Dylan, quando ele eletrificou sua música e praticamente foi expulso do Newport Folk Festival, acho que em 1965. O público estranhou, rejeitou, a imprensa cobrou, o que fica muito claro na turnê em seguida na Europa (no filme "I'm Not There" ele é chamado de Judas depois de uma performance de "Ballad of a Thin Man").

Por quê? Até então ele fazia uma coisa, ligada ao folk e à canção de protesto, com um público já cativo, e de repente estava criando outra. Mas ele tanto sabia o que estava fazendo que disse "I'm Not There", não estou lá, onde querem me colocar. Fabulosa declaração de princípios. É o contrário de tentar se enquadrar numa denominação, num rótulo. Sem isso, não há como criticar os Mr. Jones.

http://www.youtube.com/watch?v=RbYxO4CAk50

O que se vê hoje? Todo mundo doido por um rótulo, um guarda-chuva em que caiba bastante dinheiro. E nessa sofreguidão por caber no rótulo mais atraente, vale-tudo: dentro, fora, atrás do palco. Os bastidores são importantíssimos. Quem está promovendo esse mega circo está agindo nos bastidores... da espetacularização: tudo é espetáculo, vendível, vendável. Então o Dinho vai lá perguntar para uma plateia domesticada que pais é este, como se ainda estivéssemos nos anos 80. Que país é esse? É o país que parece conseguir vender/destruir tudo, inclusive sua memória. Principalmente.

Vide aí, mais uma vez, o Jabuti causando espécie, e isso que ainda estamos nos finalistas.

Ligando gerações? Ah, sim, na tomada da alienação.

Abraço.

Marcantonio disse...

Essa do Dinho realmente diz tudo. Dá para acreditar nesse pessoal? Será que ainda verei o William Bonner usando uma camisa com a retrato do Che Guevara?
E o Paralamas? E o Titãs? Este pelo menos tem o "a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro, diversão e arte... "

Abraço.

Mariana disse...

É claro que tornou-se um fake sem graça, uma pergunta retórica, a que ninguém mais parece interessado em responder.

Uma pergunta-espetáculo, por assim dizer.

http://thmari.blogspot.com/2010/05/que-pais-e-esse.html

Abraço.