Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 27 de novembro de 2011

amanheceu chovendo

Amanheceu chovendo, mais que uma poeira fina de água, trazendo um frescor leve e agradável. A chuva sempre acorda o bem em mim, renova alguma coisa difícil de precisar. Além disso, há uns passarinhos cantando, algo que distingui assim que acordei, trazendo-me à memória manhãs antigas. Estou lendo Joseph Conrad, Coração das trevas, mas hoje a leitura terá que ceder espaço ao último conjunto de redações que solicitei aos alunos do 6º ano ― um relato em primeira pessoa focalizando experiências vividas com animais, inspirado em A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector. Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu, anuncia-se (denuncia-se) a autora logo no início da narrativa. Que coisa, mesmo dirigindo-se a crianças essa senhora não evitava a morte. Mas titubeava diante dela ― assim como nos relatos de gente grande, como ela diz ―, e amenizava-a para não impactar as crianças. Não à toa, na quase totalidade das redações que li até agora, os alunos relataram experiências em que os animais morreram. Agora percebo por quê. Também teria algumas experiências com animais para relatar, mas fica para outra ocasião, pois a chuva que cai é vida, pura vida. Enquanto isso, vou deixando aqui alguns rastros do mergulho de Marlow no coração do Congo, atendendo ao chamado do mar:

“Ele era o único entre nós que ainda ‘atendia ao chamado do mar’. E o pior que dele se podia dizer era que não se tratava de um bom representante da sua classe. Era um homem do mar, mas um homem errante também, enquanto a maioria dos homens do mar, se é que se pode dizer assim, leva uma vida sedentária. Têm um espírito caseiro e carregam sempre com eles o seu lar ― o navio ― bem como o seu país ― o mar. Todos os navios são muito parecidos, e o mar é sempre o mesmo. Na imutabilidade em que habitam, são as terras estrangeiras, os rostos estrangeiro, a imensidade cambiante da vida, que se sucedem à frente deles, velados não por um senso de mistério mas por uma ignorância levemente desdenhosa, porque não existe nos homens do mar mistério algum além do próprio mar, senhor de sua existência e tão imperscrutável quanto o Destino.”


CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Trad. Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008, p.12.

LISPECTOR, Clarice. O mistério do coelho pensante e outros contos. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010.

Um comentário:

Menina no Sotão disse...

As vezes eu apenas desapareço, principalmente quanto é dezembro. O cansaço me vence e os dias são muito longos. Não gosto do dia. Não gosto de tantas coisas. Mas estava aqui, em meio a tantas coisas, escrevendo sobre as cidades e eis que esse trecho de Conrad me serviu como uma espécie de olhar além das coisas.
E por aqui não chove e estou as turras com Clarice. Valha-me. rs
bacio