Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

admirar

Admiração não se confunde com amor e amizade ― pelo contrário, pode ofuscá-los. Há qualquer coisa de exterioridade na admiração: ad-mirar, olhar que se aproxima, que se quer próximo, mas que para na pura exterioridade do gesto, na opacidade (epiderme não transparente) daquele que resiste à admiração. As palavras, na admiração, são excessivas e nunca bastantes. Simplesmente porque na admiração busca-se no outro a confirmação do próprio narcisismo. Gostar tem outra qualidade, e inclusive pode economizar palavras. A propósito, Fernando Pessoa distinguiu bem as duas coisas.

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