Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

a escrita no espelho

A censura faz parte da escrita. Na sessão de hoje, ao comentar certa angústia, a analista sugeriu que eu escrevesse sobre. Diante de minha interrogação ― o fato de eu tomar a escrita como algo público ―, ela esclareceu que estava apenas sugerindo que eu escrevesse. O que já estou fazendo. Escrever como um processo terapêutico. Naturalmente ela tem em mira o fato de a escrita poder ajudar no processo da fala durante a sessão. Mesmo assim, quantas interdições! O que é uma questão minha, antes de tudo. Diante da tirinha a seguir, disse numa aula que espelhos não falavam: quem fala através deles somos nós, e o outro que nos habita. A escrita torna-se uma modalidade de espelho do que se é, ou do que alguém supõe ser, passando a traduzir coisas que supomos interditadas. Li no blog da Helena um comentário de matéria publicada no jornal El País, e não pude deixar de concordar: “No entanto, não será um espelho aquilo que reflete a nossa imagem mais verdadeira, dado que, frente a ele, sempre a compomos. Nem quem pensa conhecer-nos a reflete. Nem quem nos ama. E muito menos quem nos odeia... Parece que, para verdadeiramente sermos decifrad@s, necessário será sermos olhad@s por quem não nos conhece de todo e, cumulativamente, não tenha razões para nos olhar com 'pré-conceitos'. Por isso, uma amiga de Ray Loriga, Sophie Calle, por ele referida no seu artigo, contratou um detetive para a seguir durante uns tempos e, com o material por ele reunido, montou uma exposição sob o nome 'Detective', na qual aprendeu com todo o rigor e provas documentais, aquilo que displicentemente dizemos, mas em que nunca verdadeiramente acreditamos: nós nunca somos quem julgamos ser!”

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