Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 11 de agosto de 2012

o lado mais frágil da existência

Tenho uma amiga que tem o dom da palavra, o que é menos comum do que se imagina. A cada vez que a encontro consigo saber um pouco mais de mim, o que é outro modo de dizer que consigo saber mais do mundo. E não posso deixar de considerar um achado, um privilégio, ter conseguido construir uma amizade assim. Da última vez em que estivemos juntas, conversávamos sobre o ritual dos aniversários, porque eu completava anos naquele dia, e havia decidido fazer diferente. Atenta a um movimento subjetivo que não é recente, a data ― que é uma passagem, a  cada ano diferente ― foi perdendo para mim a necessidade de estar em cena, na cena dos outros, para melhor exprimir. Foi deixando de ser encenação de um “eu” que... ― tudo isso é muito complicado de dizer, e há sempre o perigo de as palavras não alcançarem aquele ponto delicado em que as coisas fazem enorme sentido para nós mesmos. E por isso pude perceber a força expressiva do que minha amiga disse, me compreendendo mais do que eu mesma: a gente já passou dessa fase mais frágil da existência.

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