Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

a ficção do se

Tudo aquilo que não se vive, que alguém não vive, comporá outra vida? Como seria essa vida paralela, essa outra vida a que não cedo meu corpo? Não existe. O “se” é uma ficção. E se... Não é possível: então não existe. A ilusão consiste em vislumbrar uma espécie de universo paralelo, enquanto cria-se outra ilusão, da vida adiada. O que existe, mesmo, são estas palavras, em que a vida em mim vive. Uma pena eu não ter recursos para dizer isso com mais fidelidade ao que sinto.

5 comentários:

Jamil P. disse...

acho que a filosofia aristotélica é o melhor recurso para expressar essa questão, por meio de seus conceitos e terminologia; ela se insere na doutrina do ato e potência, a meu ver; assim, o 'se' e todo seu contexto, digamos, traduziria a potência de ser e pelo menos existiria enquanto potência, possibilidade, portanto; mas poderia expressar também uma impossibilidade, uma situação absurda, que jamais poderia ser observada na realidade (como p.ex. eu chegar à lua montado num elefante com asas de borboleta), aí existiria apenas na imaginação.
não é isso?
quando eu tiver um tempo vou ver se consigo ler algo a respeito nos meus empoeirados livros de filosofia aristotélico-tomista; é um assunto bem interessante!

Helena disse...

Olá Mariana
Quando eu era miúda vinha-me recorrentemente uma questão: se eu não tivesse nascido deste pai e desta mãe, em que família iria eu viver e como seria a minha vida então?
Um dia o meu pai tentou explicar-me que se eu não tivesse nascido deles, não exitiria e, lembro-me perfeitamente, a sensação que tive foi de uma imensa confusão e de um vazio que rejeitei de imediato. Eu tinha que me conceber para além das circunstâncias que me geraram. Dissessem-me o que me dissessem! Para isso comecei a imaginar-me em locais diferentes. Poucos, que a mundivivência não era tanta assim...

Abraço amigo

Mariana disse...

Vamos lá:

Jamil, eu sei pouco de Aristóteles, sei que ela fala da literatura como o que poderia ter acontecido (análogo ao se). De forma que seus livros empoeirados são bem-vindos, haja vista ser uma forma de fazermos uma espécie de contraponto entre o ontem e o hoje.

Quando li a fala da Helena, por exemplo, o que me veio foi o hoje, o Fernando Pessoa de "Passagem das Horas", esse transbordamento da vida num só coração:

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando...

E
T
C.

Então eu mesma reconsiderei o que havia dito sobre a impossibilidade do se. Existirmos: isso parece uma absoluta arbitrariedade: não participamos das escolhas que nos trouxeram ao mundo, o que pode dar uma sensação de gratuidade da vida.

No entanto somos conclamados a escolher, o tempo todo. Mas não subsistiria um lastro dessa arbitrariedade que nos trouxe o mundo, e as escolhas sendo apenas aparência de estar fazendo escolhas? Por isso a fixação no "se": e se meus antepassados não tivessem vindo para o Brasil? E se meu pai tivesse ficado no Rio de Janeiro em vez de voltar para o ES e se casar com minha mãe? E se aquele evento da infância não tivesse me marcado?

A potência existe, e parece às vezes querer sufocar.

Obrigada pelos comentários.

Abraço.

Helena disse...

Eu é que agradeço o seu comentário, Mariana.

Um abraço

Jamil P. disse...

É isso, o 'se' representa o poder (possibilidade de) ser, no passado, presente ou futuro. Traduz a natureza contingente do nosso ser, constituída de ato e potência. Sem ele, não haveria livre-arbítrio, não haveria escolhas, não haveria mérito ou demérito em nossos atos. Então, acho que devemos considerá-lo de um modo positivo, otimista, apesar das agruras da vida, Mariana.