Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 20 de outubro de 2012

acidente

Coração batendo surdo. É quando o coração, ao bater, parece estar esbarrando em alguma coisa. Como se estivesse precisando de mais espaço. Acidente da semana: uma garrafa de vinho se espatifou no chão do supermercado quando passei estabanada, esbarrando o carrinho. Estava em local propício a acidentes, a garrafa. Paralisia momentânea, até me situar diante da garrafa de vinho espatifada no chão, com o vinho derramado. A enorme incompetência mesmo para quebrar acidentalmente uma garrafa de vinho no supermercado. O líquido colorido derramado. Incompetência ainda maior para lidar com esse bater surdo, o vinho tinto de contidas emoções, derramadas acidentalmente no coração. Esbarrei onde não devia, distraída estava.

2 comentários:

Jamil P. disse...

que é isso! você tem que considerar como um feliz incidente - e não acidente. ver a coisa de uma maneira otimista... pensar que oportunizou (existe isso? se não, acabei de inventar. horrível, merece um anátema da abl pra mim, rs) um momento especial, único, que transformou um dia comum daquelas pessoas, clientes, empregados, adultos, crianças, enfim, todos, permitindo-lhes sentir o perfume intenso, penetrante, inebriante, doce, alegre, sedutor, etc do vinho entrando irresistivelmente pelas suas narinas até chegar ao mais profundo de seus corações, de suas almas. um evento que dificilmente se repetirá na vida de muitos ali; uma experiência sensorial inesquecível que levarão para o resto de suas vidas.

Mariana disse...

Curioso, seu comentário remeteu-me na hora a uma passagem do livro Respiração artificial, do Piglia, muito significativa, aliás, do sentido da experiência, porque é como se nesses momentos de inesperado, fora do pensado, é que de fato acontecesse alguma coisa em nossas vidas. Não sei se concordo, mas a passagem é suficientemente bem articulada ao restante da obra para ser convincente e ganhar relevo.

Pensando junto com essa perspectiva, acho que esses momentos abrem clarões (ou escuridões, caso fosse a Clarice Lispector a dizer isso) na nossa tentativa de ordem subjetiva diante do mundo. Então, um pequeno incidente talvez deflagre o acidente íntimo da percepção diferenciada da vida. Oportunize (o verbo existe), em termos mais contidos. Essa percepção é que importa, o que é deflagrado pelo acontecimento em si banal.

Não sei as pessoas, mas eu não me esquecerei...