Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 14 de outubro de 2012

entre o sono e a vigília

Há um momento, entre o sono e a vigília, que tem me surpreendido ultimamente. Estou caindo de sono, com um livro nas mãos no momento A lua vem da Ásia ―, e ainda penso que leio. Então os olhos começam a cerrar-se sobre um parágrafo que nunca mais termina, enquanto imagens estranhas atravessam minha mente como se fossem choques, pois volto a despertar imediata e instantaneamente, surpreendida, embora tenha demorado a percebê-lo assim, pelo conteúdo dos sonhos que está a penetrar a vigília. Os sonhos cabem na inconsciência do sono, e por isso a sensação de choque. São imagens e sensações estranhíssimas, que não conseguem encontrar expressão e vazão na linguagem e em sua arquitetada sintaxe. Vencida pelo sono, deixo o livro e procuro uma posição confortável para dormir, imaginando o que irei vivenciar enquanto o eu da vigília estiver ausente, praticamente sem conseguir ter acesso a isso, pois que vigilante, pela manhã, o eu volta e intercepta o que poderia chocar.

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