Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Clarice Lispector

Uma amizade sincera

 Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de um amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos ti­vés­se­mos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exal­tação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.
Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós.  Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabía­mos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seus amores. Experimentávamos ficar calados – mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separar­mos.
Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, pre­pa­rá­va­mos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto – eis nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.
Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.
Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco.
Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.
Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.
Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.
Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior,  incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.
É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de co­nhe­ci­dos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade – posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.
Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.
Encerrada a questão com a Prefeitura – seja dito de passagem, com vitória nossa – continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos. 
A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.

Clarice Lispector. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p.13-16. 

6 comentários:

Helena disse...

Que coincidência, Mariana! Hoje também postei Clarice.
Gostei tanto do livro! Mais uma vez, muito obrigada.

Mariana disse...

Oi, Helena, a Clarice é quase a substância da vida materializada em palavras. Este conto que você citou, A Imitação da Rosa, é de uma sensibilidade e percepção assustadoras: quando se lê, é quase como se a gente pudesse tocar em algum perigo que não se sabe ao certo qual é, mas assusta por ser um perigo, e estar ali.

Continuemos na troca.

Abraço.

Jamil P. disse...

a blogosfera agradece a publicação de um texto inteiro da clarice, eis que o que se vê amiúde por aí, sobretudo nas redes sociais, são apenas fragmentos e frases, pinçados aqui e acolá, à maneira da galinha que cisca sobre o milho, o que, apesar das pérolas que a autora sempre nos brinda em seus textos, faz, a meu sentir, seus textor perderem força e sentido; isso quando não se duvida até da própria autoria.

Mariana disse...

Oi, Jamil, também percebo isso, uma diluição, ao estilo clarice lispector para adolescentes. Ela tem trechos, digamos, geniais (pois ela mesma adotou tantas vezes o minimalismo). Mas, conforme o con-texto, seu texto pode perder a força, como, aliás, sói acontecer com a obra literária. Como vivemos entre palavras, no entanto, acho que certos fragmentos podem ganhar força quando independentes. Não sei... O que sei, e concordo plenamente com você, é que a Clarice pede do leitor um envolvimento que vai muito além do lido.

Jamil P. disse...

pois é, outra coisa que percebo, minha cara, é que as pessoas na situação que antes comentei em geral contentam-se, digamos assim, com esses fragmentos soltos e descontextualizados, perdendo o interesse em ler a obra em si de onde aquilo foi tirado para se aprofundar no autor (suas ideias, estilo, etc); isso vale não só para a clarice mas também para outros autores da moda (c.f.abreu et al.); acho muito perniciosa essa verdadeira preguiça intelectual e literária.

Jamil P. disse...

ps. sim, certos trechos quando descontextualizados e bem aplicados a uma realidade particular, não analógica, à maneira de uma citação p.ex., são muito bem-vindos; é uma pena que isso se dê de uma forma abusiva nesse meio virtual; pra você ter ideia, não me surpreenderei se amanhã ou depois eu ler por aí algo do tipo "bom dia, hoje está fazendo um dia quente. - clarice lispector"; curiosidade: soube de uma escritora de blog que inventou uma frases e atribuiu à clarice; aquilo foi passado adiante nas redes sociais e muitos acharam que realmente era dela etc; depois a blogueira então revelou que tudo não passou de uma brincadeira e tal; acho que ilustra um pouco o que a gente tá falando.