Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Fernando Pessoa: "Eram todos mascarados"

Eram todos mascarados
Porque eram todos gente…
Iam muitos, misturados,
Iam misturadamente…

E sem haver entender
Entre o que um ou outro era,
Ia tudo num viver
Como dentro de uma esfera…

Era um globo de ninguém
Toda aquela mascarada,
Como uma bola que tem
A superfície pintada,

E que rola monte abaixo
Só pelo declive que há.
Se a procuro não n’acho,
Porque rolou para lá…

Para lá aonde acabou
O monte que ali começa…
E em busca dela me vou
Até que o buscar me esqueça.

Fernando Pessoa. Poesia 1931-1935. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p.321.

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