Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 1 de setembro de 2013

enfim, manoel de barros

EU NÃO VOU PERTURBAR A PAZ

De tarde um homem tem esperanças.
Está sozinho, possui um banco.
De tarde um homem sorri.
Se eu me sentasse a seu lado
Saberia de seus mistérios
Ouviria até sua respiração leve.
Se eu me sentasse a seu lado
Descobriria o sinistro
Ou doce alento de vida
Que move suas pernas e braços.

Mas, ah! eu não vou perturbar a paz que ele depôs na praça, quieto.

Manoel de Barros. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010, p.35. 

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Mariana! Meu nome é Raquel, descobri sua página por acaso e desde então sempre venho ler suas postagens.
Muitas vezes me identifico, como a poesia de hj!Adoro o blog,é belíssimo!Abraço
* Você lembra muito a atriz Juliette Binoche

Mariana disse...

Muito obrigada, Raquel! [pelos elogios, pela leitura e pela presença neste espaço]