Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.
sábado, 22 de junho de 2013
sexta-feira, 21 de junho de 2013
quinta-feira, 20 de junho de 2013
"conversa afiada"
A Rede Globo — e Cia. Ilimitada — vai fazer de tudo
para capitalizar os protestos em benefício próprio, mirando-os, pela
manipulação, contra o PT e a presidente Dilma, e escamoteando o fato de que também é alvo dos protestos. Isso sem
falar na figura ridícula que atende pelo nome de Arnaldo Jabor.
domingo, 16 de junho de 2013
Herberto Helder: um idioma sem gramática (para o domingo)
A alimentação simples da fruta,
a sabedoria infusa,
as constelações ao alto zoológicas arquejando,
brutais
animais vivos, e à mesa de súbito o ar deslocado nas
palavras, como se
por cima do ombro respirasse a memória
assimétrica do mundo, e um idioma sem gramática,
uma rápida música descentrada,
fundassem tudo, e depois corressem
o bafo e o fogo.
Herberto Helder. Ofício cantante. Lisboa: Assírio &
Alvim, 2009, p.515.
sábado, 15 de junho de 2013
Paulo Leminski
a vida é as vacas
que você põe no rio
para atrair as piranhas
enquanto a boiada passa
Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das
Letras, 2013, p.95.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Emily Dickinson
Um Vão na
Pedra Tumular
Faz do
feroz Lugar
Um Lar —
A Dimple in the Tomb
Makes that ferocious Room
A Home —
DICKINSON,
Emily. Não sou ninguém: poemas. Trad. Augusto de Campos. Campinas,
SP: Editora da Unicamp, 2008, p.106-107.
terça-feira, 11 de junho de 2013
tudo às vezes parece tão simples...
"É necessário que eu tenha a modéstia de viver." (Clarice Lispector)
domingo, 9 de junho de 2013
a arte num conto de Cortázar
“Simulacros”, conto de Histórias
de cronópios e de famas (Julio
Cortázar. Trad. Gloria Rodríguez. 12.ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2009, p.21-24), coloca para o leitor o
desafio de pensar o papel e o lugar da obra de arte. A estranha família
dedica-se a construir um patíbulo no jardim de sua casa, sem precisar o fim ou
as motivações de fazê-lo:
“Somos uma família estranha. Neste país onde as coisas se fazem
por obrigação ou fanfarronada, gostamos de ocupações livres, das tarefas sem
importância, dos simulacros que de nada adiantam. Temos um defeito: a falta de
originalidade. Quase tudo o que resolvemos fazer foi inspirado — digamos
francamente, copiado — de modelos célebres. Se contribuímos com alguma novidade
é sempre inevitável: os anacronismos ou as surpresas, os escândalos. Meu tio
mais velho diz que nós somos como as cópias de papel carbono, idênticas ao
original, a não ser que de outra cor, outro papel, outra finalidade. [...] Fazemos
coisas, mas contar é difícil porque falta o mais importante, a ansiedade e a
expectativa de estar fazendo coisas, as surpresas tão mais importantes que os
resultados, os fracassos em que toda família cai no chão feito um castelo de
cartas e durante dias e dias não se escuta mais do que lamentações e
gargalhadas. Contar o que fazemos é apenas uma forma de preencher os vazios
inevitáveis, porque às vezes estamos pobres ou presos ou doentes, às vezes
morre alguém ou (custa dizê-lo) alguém trai, renuncia, ou entra para a
Direção do Imposto de Renda. Mas disto não se deve deduzir que vamos mal ou que
somos melancólicos. Moramos no bairro de Pacífico e fazemos as coisas toda vez
que podemos. Somos muitos a ter ideias e vontade de levá-las à prática. Por
exemplo o patíbulo, até hoje ninguém chegou a acordo sobre a origem da ideia
[...].” (p.21)
O estranho patíbulo vai se fazendo, erguendo, ganhando forma,
assim como ganha forma e proporção o escândalo ao redor dele, da família que o
constrói, do jardim onde está sendo construído: “A essa altura dos
acontecimentos as pessoas da rua não podiam deixar de perceber o que estávamos
fazendo, e um coro de protestos e ameaças nos estimulou agradavelmente a
encerrar a jornada com a montagem da roda. [...] A polícia chegou no momento em
que a família, reunida na plataforma, comentava favoravelmente o bom aspecto do
patíbulo.”
A terceira irmã — a mesma que se comparava ao rouxinol mecânico
de Andersen e cujo romantismo dava náuseas no narrador — era a única afastada
do grupo no momento da chegada da polícia, e a ela “coube dialogar pessoalmente
com o subcomissário; não foi difícil convencê-lo — prossegue o narrador — de
que estávamos trabalhando dentro de nossa propriedade, numa obra a que só o uso poderia
conferir um caráter inconstitucional, e que os comentários da vizinhança
eram produto do ódio e fruto da inveja.” (p.24) Deslocado de seu uso e contexto
habitual, nada impede que uma obra seja tomada artisticamente, exceto a
cegueira do utilitarismo. Que esta obra seja um patíbulo, ou um simulacro deste,
só faz pensar nos mecanismos de morte e vida que animam a produção em série e
em larga escala do universo capitalista, avesso ao caráter artesanal e
genuinamente coletivo de qualquer coisa, a não ser que essa coisa possa ser
institucionalmente chamada de “arte”, e seja colocada num lugar socialmente
previsto para alojá-la, a que as pessoas se dirijam para encontrar e apreciar o
que chamam de arte, porque assim se convencionou fazê-lo.
sábado, 8 de junho de 2013
segunda-feira, 3 de junho de 2013
"o homem não é a medida de todas as coisas" (o pensamento de Spinoza)
“Nossos valores, nossas noções testemunham, por assim
dizer, sobre nós, não sobre a natureza das coisas; expressam as maneiras como
somos afetados pelas coisas e como reagimos a elas, mas não podem explicar o
real ou servir à compreensão da natureza, a não ser por obra da superstição ou
do preconceito ou até de um racionalismo desembestado que desejasse meter a
natureza no cubículo da razão humana.”
Homero Santiago. Spinoza: superstição e ordem moral
do mundo. In: MARTINS, André (Org.). O
mais potente dos afetos: Spinoza e Nietzsche. São Paulo: Martins Fontes,
2009, p.211.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Dora Ferreira da Silva
A VIDA
Árvore que consome o tronco
nos galhos
nas dissipadas folhas
floração. Frutos.
Livre de seu penoso
e jubiloso trânsito por este mundo
erguei voo — pássaro — cujo nome
só a boca dos arcanjos pode
pronunciar
erguei voo
leve de todo lastro
livre de todo apego:
notas musicais libertas do
instrumento
pousada em paz
após laboriosa partitura
que também jaz
completa.
Dora Ferreira da Silva. Poesia
reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.271.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
a propósito dos poucos e incisivos rastros que os sonhos deixam
Sonhos — estranhos artífices da vida.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
reflexão a caminho do trabalho
— Deus?...
— No céu, apenas nuvens... (o efêmero, o transitório,
o informe, a presença ausente).
quinta-feira, 23 de maio de 2013
quarta-feira, 22 de maio de 2013
pequenas canções
Houve um tempo, bom, em que eu amanhecia ouvindo
pássaros cantando nas imediações de onde vivia. Eles não sei onde viviam, mas é
como se vivessem onde eu vivia. Hoje, às vezes, um pássaro ou outro canta pela
manhã, e isso é o bastante para trazer de volta todos aqueles pássaros daquelas
já distantes manhãs, ou quem sabe me levar até elas.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Manuel Bandeira
TEMA E VOLTAS
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto na noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento,
Cheira a flor da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto na noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento,
Cheira a flor da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20.ed. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1993, p. 192.
sábado, 11 de maio de 2013
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