Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Belo Horizonte (escrito num precioso parêntese)

Belo Horizontem (apanhado do Rubem Braga, 
conforme a memória distante do livro que ficou no Rio).
Hoje.
Amanhã.
Não sei por que não chamam a esta de
cidade maravilhosa.
Talvez seja a cidade,
talvez seja apenas meu olhar,
talvez seja a companhia certa dos amigos,
que me traz um sentimento raro de pertencimento,
aquele de que fala a Clarice Lispector,
que encontro aqui, e me é um completo mistério.
Talvez seja a ação do tempo e da distância
criando esse complexo de sensações,
por efeito da saudade,
palavra ímpar da língua portuguesa.
Talvez tudo isso e um "a mais".
Mas, disse o saudoso poeta (Carlos "José" Drummond de Andrade),
Minas não há mais.
Eu amo Minas Gerais.

9 comentários:

Luigi disse...

Que lindo...também amo Minas, sou mineiro.

Mariana disse...

Você é um dos motivos de eu amar Minas Gerais, esse lugar que me deu tantas coisas boas. Hoje, finalmente, entregarei os exemplares lá no programa (ufa!). Estranha sensação de liberdade. Depois vou passear e curtir um pouco a cidade. Pena você não estar aqui.

Luigi disse...

Sinta essa liberdade e deixe o ar de Minas tocar sua pele. Você merece essa liberdade, posto que ela foi conquistada. Estarei aí no dia da sua defesa!

josépacheco disse...

Essa liberdade não vem acompanhada de uma sensação de falta de algo importante? De uma quase-amputação?

Mariana disse...

Quando tudo acabou, na madrugada, a última página conferida, eu senti de fato uma coisa bem estranha, uma espécie de nada, de vazio. Era já bem depois de meia noite, mas não havia sono, não havia nada, apenas um vazio. Mas o cansaço foi tal, que a posterior sensação de leveza me veio como liberdade: liberdade de me permitir, por um tempo, ler por prazer, ler por satisfação pessoal, e deixar um pouco as obrigações acadêmicas.

Não sei se consegui dar expressão a esse estranho vazio que sucedeu ao "ponto final" da escrita.

Renata disse...

Acho que seu amor por Minas é bem correspondido, né? rs

Mariana disse...

É inacreditável como às vezes as coisas adquirem uma configuração toda própria. Estou aqui, postando esse comentário, naquela casa que você conhece (da vila de Santa Efigênia, das meninas), e de repente, pensando no que dizer desse amor correspondido, olho pela janela da sala e tenho ao meu dispor uma árvore enorme, frondosa, iluminada pelo sol das duas da tarde, isso, esse cenário, tomando toda a moldura da janela de onde me coloco agora, sentada, escrevendo...

sonia disse...

Eu queria ter nascido e vivido em Minas, tenho um amor enorme por essa terra, para mim o melhor estado do Brasil, em todos os sentidos!

Mariana disse...

É um lugar fascinante, embora eu não tenha nascido lá: sou do Espírito Santo.

Mas o estado do coração é Minas Gerais: entre idas e vindas, morei oito anos lá. Já o Espírito Santo é uma espécie de refúgio (falo do interior).