Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Andrei Tarkovski: uma cena de "Nostalgia"


Um amigo recomenda-me sempre os filmes Tarkovski. De tanto falar, acabo prestando atenção. No youtube, onde encontrei esta sequência, há uma breve apresentação que pede leitura. “Nostalgia, mais do que um retorno ao passado, é esse desejo, sem-solo, de se tocar, de se contagiar (e contagiar o espectador) com um sentido indecifrável de eternidade. E esse é o grande êxito do filme, e de Tarkovski.” Mais na revista Contracampo.

5 comentários:

Luiz disse...

Não sabia que você conhecia Tarkovski. Sou doente pelo cinema dele e faltam posts sobre ele no meu blog. Nostalgia é um de meus prediletos. A sequência que v. selecionou é perfeita. Recentemente vi um documentário sobre o cinema dele. Interessante que sua obra vem muito ao encontro daquela discussão sobre o sagrado. Beijo!

Mariana disse...

Mas eu não conheço... De tanto o amigo falar, resolvi me situar, e deparei-me com esta sequência maravilhosa. Parece que, para assistir, só mesmo download, então preciso vencer a minha ignorância em manejar isso. E há um livro dele, "Esculpir o tempo", que dizem ser obrigatório.

Esta sequência me fez pensar muitas coisas, em Sísifo, sobretudo, mas também no que você pontua, a questão do sagrado, na não gratuidade de estar aqui. De vez em quando me ocorre que vou morrer um dia, e isso me deixa bastante confusa.

Puxa, então escreva sobre os filmes, sobre este, escreva!

Beijo!

Luiz disse...

Nossa,q ue bonito isso que v. disse, da não gratuidade de estar aqui. Já vi inúmeras referências ao livro dele, mas não li ainda. Vi quase toda a filmografia dele, ela está disponível em DVD. Agora escrever sobre ele, puxa, difícil. Tem um texto da Betariz Sarlo que recomendo muitíssimo, se intitula "A imaginação do futuro", no qual ela analisa o filme O sacrífico. Está no livro Paisagens imaginárias, no qual há também o artigo Esquecer Benjamin.

Mariana disse...

Obrigada :) Penso nessa não gratuidade a cada vez que me percebo gastando minha vida à toa, perdendo tempo com o que não vale a pena. Mas o que vale a pena para cada um? Há coisas estranhas que nos acontecem o tempo todo, situações, precisamos ser fortes. Eu sou, mas às vezes esqueço que sou. Uma coisa é certa: passaremos, e os rastos que de nós ficarem continuarão falando de nós, por algum tempo. Esses rastos estão sendo impressos na superfície da terra, agora, a cada pisada, e dão a medida da nossa insuficiência. Mas também de nossa força. Então é para não esquecer nunca: não são gratuitos os gestos/ações que fazemos, embora a maioria das vezes sejam timbrados pela distração. Desculpa pelo excesso do meu manual barato de auto-ajuda.

Está disponível em DVD? Oba! Onde compro ou alugo?

Sim, o livro dele, fiquei interessada. E talvez compre esse livro da Beatriz Sarlo. Obrigada pela menção, e pelo comentário!

Escreva o que sair, ainda que seja um breve parágrafo.

Andrei Serres disse...

Só perdemos tempo quando temos algo a recompensar. A vida é gratuita, grátis. Só pagam os que se embalsamam no tempo do reconhecimento, na representação, na linguagem, no simbólico.
"A graça que enche o corpo antes que ele se encha de verbo equivale a beleza, diz a gratuidade... Salve, corpo cheio de dados gratuitos, por ele recebidos como dados do mundo. Desde que o verbo surge, a gratuidade desaparece; é preciso descobrir quanto custa escrever ou falar."

Quando atendemos a gratuidade, brincamos de esculpir uma vida. o que é uma paisagem? Tarkovski, impessoal, uma paisagem, hecceidade Rússia-Ocidente (nada a ver com imaginário, manchas. Cristal de tempo esculpido nos elementos da terra.