Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 19 de novembro de 2011

acender um fogo

“Então foi afundando num sono, que lhe pareceu ser o mais confortável e satisfatório que já conhecera na vida. O cão encarava-o, numa imobilidade de espera. O dia curto aproximava-se do fim, num longo, vagaroso crepúsculo. Não havia sinais de um fogo em preparo ― além disso, em sua experiência de cão nunca ele vira um homem jazer assim na neve e não fazer um fogo. À medida que o crepúsculo avançava, a ânsia do calor dominou-o ― ergueu alto no ar uma depois a outra pata dianteira e uivou brandamente; em seguida baixou as orelhas em antecipação aos ralhos do homem. Porém o homem permaneceu silencioso. Mais tarde o cão uivou alto; mais tarde ainda chegou-se de rastos até junto do homem e sentiu o cheiro da morte ― que o fez eriçar o pelo e recuar. Atardou-se ainda algum tempo, uivando sob as estrelas, que saltavam e dançavam e rebrilhavam no céu frio. Depois se voltou e trotou pela trilha afora em direção ao acampamento que conhecia, onde havia outros provedores de alimento ― e provedores de fogo.”

JACK London. Acender um fogo. Contos norte-americanos. Organização Vinicius de Moraes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, p.256. Tradução deste conto: Ruth Leão. 

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