Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Uma rosa para Emily (William Faulkner)


O conto “Uma rosa para Emily”, de William Faulkner, integra a coletânea em tela. Uma obra-prima. De minha parte, pensei em conhecida Emily, em secretas homenagens. Por que não? "O poço e o pêndulo", de Edgar Allan Poe, também comparece, e encontrei no volume um conto simplesmente único, magistral, "O ousado rapaz do trapézio suspenso", de William Saroyan, título que alude a conhecida canção popular norte-americana. A tradução de João Cabral de Melo Neto é quase musical: "Saiu a caminhar na manhã, tão desperto quanto podia, dando batidas secas com os calcanhares, recebendo com os olhos a verdade superficial das ruas e das estruturas, a verdade banal da realidade. Sem que o procurasse, viu-se a cantarolar: 'Com a maior facilidade voa no espaço imenso, o ousado rapaz do trapézio suspenso', e depois riu com toda a capacidade do ser. Estava, na verdade, uma esplêndida manhã; nublada, fria e triste, uma manhã para a vida interior; ah, Edgar Guest, murmurou, que fome de tua música.' Esplêndida é a poesia desta tradução, é intuir que há uma verdade banal da realidade.

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