Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

parágrafo

Ontem pensei muito num post assim: “Não sou para-raio de maluco.” Pois me lembrei de uma frase dita a uma amiga, não nesta letra, e aproximando um pouco o espírito. Eu havia dito a minha amiga, ao me despedir dela já um pouco tarde em sua casa, que não se preocupasse, pois nada costuma me acontecer nessas circunstâncias. Pensei mas não postei. E então, porque pensava também na grafia de para-raio segundo o acordo ortográfico, sonhei, Deus sabe por quê, que parágrafo havia perdido o acento. O bastidor aí já é outro, uma conversa recente com os colegas de trabalho sobre aspectos contraditórios do acordo, com o qual, no que diz respeito ao hífen, pouco me familiarizei até agora, pois que já não tinha muita familiaridade com o hífen. Mas é claro que não sonhei com o acordo, embora possa ter sonhado com a história da língua. Sonhei com o dito não postado, menos que um parágrafo, apenas uma frase. E é uma pena que, do sonho, só esta lembrança tenha ficado, já que, por lampejos, sei que havia outras coisas, que foram embora assim que a manhã tomou o lugar da noite. Não sei o que a palavra parágrafo estava fazendo no meu sonho. Quem sabe uma metonímia do dia de ontem, física e mentalmente bastante cansativo, com muitos parágrafos, não necessariamente concordantes, às vezes com ruídos, mas fazendo um texto novo, me parece. 

3 comentários:

Jamil P. disse...

Até porque em se tratando desse acordo ortográfico, acho que seria o caso de ter pesadêlo, não sonhar.
Você meio que escreve como um engenheiro, muita vez, mas eu gosto.

Jamil P. disse...

Cacilda, pesadêlo com circunflexo é mesmo um pesadelo! Mas não foi proposital, é que vivo ainda na era paleolítica desses acordos e reformas ortográficas. Devido, em parte, às coisas que tenho lido. No livro do Sêneca, p.ex., ele tá grafado como êle, sobre como sôbre, governo como govêrno, e assim pela frente...

Mariana disse...

Jamil, tranquilo, eu tinha entendido pelo lado da piada, da ironia.

O livro do Matias Aires de que falei dias atrás, embora tenha sido atualizado quanto à ortografia, apresenta a pontuação bem caótica, paleolítica, eu diria.

O interessante é poder pensar essas mudanças, e o quanto a normalização gramatical acaba por moldar a língua. Machado de Assis era castiço, mas não escrevia como nós escrevemos hoje. Dizia "cousa", e não "coisa"...