Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 29 de abril de 2012

dansa ligeira

“E aí o povo encheu a rua, à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes. E êles negaceavam e pulavam, numa dansa ligeira, de sorriso na bôca e faca na mão.”

Rosa, João Guimarães. A hora e vez de Augusto Matraga. Sagarana. 6.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, p.362-363.

Uma coisa são os acordos ortográficos, com as modificações na norma de grafia das palavras; outra é a criação lexical de um autor como Guimarães Rosa, infelizmente desrespeitada nas sucessivas edições de sua obra. A edição da Nova Fronteira é bem irregular. Na edição de 2001 de Sagarana lê-se assim o trecho citado:

“E aí o povo encheu a rua, à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem do Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes. E eles negaceavam e pulavam, numa dança ligeira, de sorriso na boca e faca na mão.” (p.410)

O que é lamentável, pois em Guimarães Rosa as palavras querem dansar, na frase e no universo do leitor, insinuar, no ‘s’, o movimento que elas vivificam...

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