Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

respiração artificial

Respiração artificial, de Ricardo Piglia, é diferente de tudo que já li: posso dizer mesmo uma grata surpresa. É um romance político, e embora certos nomes citados possam não ser familiares ao leitor não argentino, isso não impede, de forma alguma, perceber e apreciar a intrincada trama literária que o escritor arma para tenta capturar a história, ou melhor, as águas da história, como uma das personagens diz. Há passagens memoráveis, como esta:  

“E então? Um círculo. Uma morte atrás da outra. Muito bem: onde começa essa cadeia que encadeia os anos para vir se encerrar comigo? Como começa? Não deveria ser essa a substância de meu relato? A origem?  Porque se não, para que contar? De que serve, jovem, contar, se não for para apagar da memória tudo o que não for a origem e o fim?” (p.50). “(...) porque tudo que contamos se perde, se afasta. Contar, então, é para mim uma maneira de apagar dos afluentes de minha memória aquilo que quero manter para sempre afastado de meu corpo.” (p.48) Ricardo Piglia. Respiração artificial. Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

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