Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Paulo Leminski

o que passou passou?

    Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
    é que era morrer.
Morria gente todo dia,
    e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
    que o Juízo, afinal, viria
e todo mundo ia renascer.
    Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
    E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
    Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
    lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
    Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
    uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
    O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
    Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
    que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
    Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
    Tinha coisas que tem que morrer,
tinha coisas que tem que matar.
    A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
    Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
    a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
    e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
    Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
    Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto
    de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
    O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
    Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
    Não tem o que reclamar.
Agora, vamos ao testamento.
    Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
    Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
    a ciência da eternidade
 inventou a criônica.
    Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

Paulo Leminski. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.287-288.

Um comentário:

Anônimo disse...

SE VIVE CRÔNICAMENTE...Não morreremos por qualquer vulgar vírus...