Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 9 de março de 2014

Jacques Prévert

PRODÍGIOS DA LIBERDADE

Nos dentes da armadilha,
a pata da raposa.
E o sangue sobre a neve,
o sangue da raposa.
E marcas sobre a neve,
as marcas da raposa
que foge com três patas,
sob o sol já poente,
levando entre seus dentes
uma lebre ainda viva.

Carlos Drummond de Andrade. Poesia traduzida. São Paulo: Cosac Naify, 2001, p.307.

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