Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

é difícil enxergar

Apanhados os novos óculos, e ingressando, como mais uma fronteira avançada, na era do multifocal, tomei o metrô em direção à clínica oftalmológica para a conferência. Cerca de duas estações depois, entrou no metrô uma moça amparada por um fiscal: era cega, e se acomodou em pé perto de mim. Ainda assim, demorei um tempo para perceber o que se passava. Como é difícil!

Fernando Pessoa & Cia em São Paulo: Carlos Felipe Moisés

“Antes de partir para o Brasil, Fernando Pessoa insistiu com seu amigo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros em Lisboa, para que o acompanhasse. Este refugou: ‘São Paulo? A cidade que não pode parar? Melhor não. Desassossego por desassossego, prefiro o de cá’.” AQUI.

A biblioteca particular de Fernando Pessoa

AQUI.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Mário Faustino

LEGENDA

No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia.
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se entendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.

Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.

Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia ―

E mudo sou para cantar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.

FAUSTNO, Mário. Poesia completa e traduzida. Ed. Max Limonad, 1985, p.149-150.

ainda o rock

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Emily Dickinson

How destitute is he
Whose Gold is firm ―
Who finds it every time
The small stale Sum ―
When Love with but a Pence
Will so display
As is a disrespect
For India ―


Tão miserável é aquele
Firme em seu Ouro ―
Que avalia a todo tempo
Contar com Pouco ―
Quando o Amor com um só Centavo
Se mostraria
Como se fosse uma afronta
À Índia ―

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.94-95.

Eduardo Alves da Costa

No caminho com Maiakóvski

"[...]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[...]"

broken mirror

"breaking mirrors with a kitchen knife, 
a rock you found in your backyard, 
and your philosophy book will give 
you lasting scars. just so you know." 

Milton Nascimento: Outubro

ternura

O caos é uma questão de tempo, seu efeito. É o modo que as coisas encontram de obedecer ao princípio da conservação da energia. Resistir ao caos é conseguir manter, no struggle for life, a própria energia, sem perder a ternura. Porque não pode haver ternura, amor, bondade, criação onde não existe força.

domingo, 25 de setembro de 2011

conversa com o Guilherme, de 8 anos

conversa, conversa, conversa...
— Você sabe o segredo para ficar bom?
— Não, não sei, me conta o segredo para uma coisa ficar boa.
— É só colocar junto tudo o que a gente gosta.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Rainer Maria Rilke

A PANTERA

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Tradução Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2007, p.56-57.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

enxergar

Enxergar, verbo de origem controversa, fazendo par com ver. Destaco, do dicionário, os sentidos: distinguir, perceber pela visão; ver a custo; divisar, entrever. É como um sentido situado atrás da visão, que pode não depender dela, dos olhos. É fácil, embora incômodo, fingir não enxergar o que os olhos veem, assim como pode levar anos para se conseguir enxergar o que os olhos então não puderam mostrar.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

rock

Não saberia dizer o que é o rock, em sua essência, se alguém me perguntasse, ouvinte amadora que sou e também restrita. Mas acho que consigo dizer o que não é rock. A memória desse estupendo movimento musical, dos grandes talentos que o criaram e deram-lhe continuidade, está sendo sugada pelo apetite do consumo fácil e descartável. E de tão pasteurizado, diluído, mixado, o rock vai se tornando irreconhecível, convertendo-se em mero aditivo da publicidade e do espetáculo. Até aqui o texto. Agora o subtexto, embora fosse perfeitamente dispensável a alusão.

Dora Ferreira da Silva

CONVERSA COM PESSOA

Ai, não ter a vida provas de revisão
para mudar-lhe as vírgulas, acrescentar-lhe pontos de interrogação
e sobretudo passar a limpo dores e amores
arranjar vasos de flores, ter um gato de estimação,
ouvir a rolinha e consolar-lhe a aflição...

Ai, não ter a vida provas de revisão
para endireitar-lhe as linhas, trocar palavras
e afinal arrancar as páginas todas do livro
e suprimir-lhe a edição.

Dora Ferreira da Silva. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, p.182.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Pertencer - Clarice Lispector

“Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano no berço mesmo já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pele menos eu pertencia um pouco a mim mesma. O que é um fac-símile triste.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de ‘solidão de não pertencer’ começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso o que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertencesse. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos ― e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força ― eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Embora eu tenha uma alegria: pertenço, por exemplo, a meu país, e como milhões de outras pessoas sou a ele tão pertencente a ponto de ser brasileira. E eu que, muito sinceramente, jamais desejei ou desejaria a popularidade ― sou individualista demais para que eu pudesse suportar a invasão de que uma pessoa popular é vítima ―, eu, que não quero a popularidade, sinto-me no entanto feliz de pertencer à literatura brasileira. Não, não é por orgulho, nem por ambição. Sou feliz de pertencer à literatura brasileira por motivos que não têm a ver com literatura, pois nem ao menos sou uma literata ou uma intelectual. Feliz apenas por ‘fazer parte’.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.110-111. Crônica publicada em 15 de junho de 1968.

Stephen Dedalus: "Tece, tecedor do vento"

“Não tivesse Pirro tombado às mãos de uma megera em Argos ou Júlio César sido apunhalado de morte? Não são para não serem pensados. O tempo ferreteou-os e agrilhoou-os, eles estão alojados no compartimento das possibilidades infinitas que eles expulsaram. Mas podem estas ter sido possíveis atendendo a que nunca foram? Ou era só possível o que ocorreu? Tece, tecedor do vento.
― Conte-nos uma história, senhor.
― Conte, senhor, uma de fantasmas.
[...]
Deve ter havido um movimento então, uma efetivação do possível como possível. A frase de Aristóteles se formou a si mesma em meio aos versos parlapatões e sobreflutuava no silêncio estudioso da biblioteca de Santa Genoveva, onde ele lera, abrigado do pecado de Paris, noite a noite. Ao seu cotovelo um siamês delicado esmiuçava um tratado de estratégia. Nutridos e nutrientes cérebros ao meu redor: sob lâmpadas incandescentes, pingentes com filamentos pulsando desmaiados: e na escuridão de minha mente uma preguiça de inframundo, relutando, avessa à claridade, remexendo suas dobras escamosas de dragão. Pensamento é o pensamento de pensamento. Claridade tranquila. A alma é de certo modo tudo que é: a alma é a forma das formas. Tranquilidade súbita, vasta, candescente: forma das formas.

JOYCE, James. Ulisses. Trad. Antonio Houaiss. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p.34-35.

Claude Monet

Obras de Monet em site interativo: http://www.monet2010.com/

domingo, 18 de setembro de 2011

"brainstorm"- Clarice Lispector (trecho)

“Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca. O que é que uma pessoa diz a outra? Fora ‘como vai?’ Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada no nível consciente, e o terror da franqueza vem da parte que tem no vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criadora inconsciência do mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta tarde triste que uma palavra humana salvaria. A pior cegueira é dos que não sabem que estão cegos. Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo.”

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.245.

a arenga dos discursos

Diz-se amiúde: cada um luta com as armas que tem. É engano: a luta é com as armas que se consegue manusear. E mesmo isso é passível de questionamento (e o que não é?): a palavra "arma" põe em cena um componente belicoso próprio de um tempo em que tudo parece estar em guerra. O embate, qualquer que seja, começa na linguagem, e assumir a posse de armas é colocar-se no terreno da disputa que a postura parece querer encampar. Passa despercebido que e como o mundo penetra na linguagem e a elege como território privilegiado de seu campo de batalhas, da qual emanam ditos simplificadores dispondo as pessoas, supostamente, de armas com que lutar.