Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ternura

O caos é uma questão de tempo, seu efeito. É o modo que as coisas encontram de obedecer ao princípio da conservação da energia. Resistir ao caos é conseguir manter, no struggle for life, a própria energia, sem perder a ternura. Porque não pode haver ternura, amor, bondade, criação onde não existe força.

4 comentários:

Luiz disse...

Adorei o Milton no post posterior e este texto de cá é uma verdadeira pérola. Lendo tanto Nietzsche nos últimos tempos é claro que me identifico com aquilo que v. acentua no final de seu texto, a ideia de força, tão cara ao filósofo de Sils Maria. Beijos e força sempre!

Mariana disse...

... outra vida vai nascer.

Interessante ele falar de seu outubro de homem, como forma de amadurecimento.

"certa moça me falando alegria"

Escrevi esse texto ontem no ônibus, voltando... anotei no celular.

Essa força, em algum lugar ela está.

Obrigada! Beijos!

Marcantonio disse...

Diga-me, ó Caos,
tu és tudo mesmo?
Essa bagunça?!
Então como pus ordem
nesta pergunta?

Mariana disse...

LEGENDA
Mário Faustino

No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia.
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se entendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.

Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.

Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia -

E mudo sou para cantar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.


Mário Faustino. Poesia completa e traduzida. Ed. Max Limonad, 1985, p.149-150.