Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 10 de setembro de 2011

What are you looking for? (Philip Glass)

OLD BOY

Assistir Old Boy (2003) é ter a chance de pensar em profundidade sobre questões  cruciais da existência, como o destino. O que disse o Omelete: “... o diretor coreano Park Chanwook mistura a inquietante violência tarantinesca com uma trama de mistério que levaria um sorriso ao rosto de Hitchcock. Esse amálgama de estilos funciona perfeitamente nas telas e o resultado tem uma originalidade rara hoje em dia.” O ideal é não ler nada sobre o filme antes de assistir e, depois, ter alguém com quem conversar.

o caos por henry miller

“Falando por mim, devo dizer que se eu jamais tive alguma esperança, seja escatológica ou de outro tipo, foi Dostoievski quem a aniquilou. Ou talvez eu deva modificar o que disse acrescentando que ele ‘tornou fúteis’ as aspirações culturais engendradas em mim por minha formação ocidental. Minha parte asiática, numa palavra, o mongol que há em mim, permaneceu intacta, e continuará para sempre intacta. Esse meu lado mongol não tem nada a ver com a cultura ou a personalidade; ele representa a raiz do ser, cuja seiva vem de algum antiquíssimo ramo ancestral da minha árvore genealógica. Nesse reservatório insondável, todos os elementos caóticos da minha natureza e do legado americano são engolidos como o oceano engole os rios que nele desembocam. Estranhamente, sendo americano de nascença, entendo melhor Dostoievski, ou antes seus personagens e os problemas que os atormentam, do que se eu fosse europeu. A língua inglesa, a meu ver, é mais adequada para expressar Dostoievski (se a pessoa precisa lê-lo em tradução) do que o francês, o alemão, o italiano ou qualquer outra língua não eslava. E a vida americana, do nível dos gângsteres ao nível dos intelectuais, apresenta paradoxalmente uma imensa afinidade com a vida cotidiana multilateral da Rússia de Dostoievski. Que melhor campo de provas se pode desejar do que esta Nova York metropolitana, em cujo solo conglomerado toda ideia irresponsável, ignóbil e louca floresce como uma erva daninha? Basta pensar no inverno daqui, no que significa sentir fome, solidão e desespero neste labirinto de ruas monótonas ladeadas de prédios monótonos habitados por indivíduos monótonos repletos de pensamentos monótonos. Monótonos e ao mesmo tempo ilimitados!
Embora milhões de nós nunca tenham lido Dostoievski e nem sequer reconhecessem o nome caso lhes fosse dito, ainda assim eles são, milhões deles, figuras saídas diretamente de Dostoievski, vivendo aqui na América a mesma vida ‘lunática’ que as criaturas de Dostoievski viviam na Rússia de sua criação. Se ontem eles ainda podiam ser vistos como possuidores de uma existência humana, amanhã seu mundo terá um caráter mais fantasticamente assolado por demônios que qualquer criação de Bosch, ou todas elas. Hoje essas figuras ainda se deslocam ao nosso lado ombro a ombro, sem assustar ninguém, aparentemente, com seu aspecto antediluviano. Alguns continuam de fato a perseguir sua vocação ― pregando o Evangelho, preparando cadáveres, cuidando dos loucos ― como se nada de momentoso tivesse acontecido. Não têm a mais vaga ideia de que ‘o homem não é mais o que era antes’.

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaskman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.26-27. 

sonhando Godard

Ontem, no final da tarde, vi, num canal alternativo, uma matéria sobre o cinema de Jean-Luc Godard. Esta noite, tanta coisa compareceu em meus sonhos, signos esparsos unidos por um fio muito tênue... mas estava tudo lá, elementos díspares que a música do dia mais ou menos acalma ― aquele calo da alma que não quer calar, certas pessoas (o que representarão?), amizades perdidas que levam de volta ao amor. No sonho, como no cinema de Godard, é a própria noção de representação que entra em cena. Talvez não seja o caso de tentar interpretar, mas deixar que os signos falem: afinal eles conseguiram romper a barreira da noite e encontrar no dia um mote, um elemento deflagrador e aglutinador ― as imagens em movimento do cinema, não qualquer cinema. Então o sonho seria como um filme, um curta-metragem, vivido quando se dorme e assistido quando se vive. E vertido em escrita quando se percebe nas palavras a extensão dos difíceis signos entrevistos no sonho. 

Quad Time: Origamibiro


 “Imagine music and video playing a game together. And telling stories at the same time. That’s what it’s like to experience a performance by audio-visual collective Origamibiro.
Site oficial: http://origamibiro.com/. Créditos ao blog não gosto de plágio.

Álvaro de Campos

O melodioso sistema do Universo,
O grande festival pagão de haver o sol e a lua
E a titânica dança das estações
E o ritmo plácido das eclípticas
Mandando estar tudo calado.
E atender apenas ao brilho exterior do Universo.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.96.

Álvaro de Campos: um soneto

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.56.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

por que Walter Benjamin não vai deixar, tão cedo, de incomodar

“A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e as espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas.”

“Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participaram do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos de bens culturais. O materialista histórico contempla-os com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima de seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo."

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. __. Magia e técnica, arte e política. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. 7.ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p.223-225. (Obras escolhidas, 1)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

11 de setembro

Há 10 anos atrás eu estava tão, mas tão em outro lugar, que me surpreende, agora o percebo, como minha minúscula vida pode ter mudado tanto, e tantas vezes, numa década ― e uma década é uma boa baliza para avaliar transformações ― enquanto uma nação poderosa parece não querer deixar o mundo esquecer suas cicatrizes. Eu também sou teimosa, não esqueço fácil as minhas cicatrizes, mas o mundo não tem nada que ver com elas, a não ser supondo a relação pouco palpável dos sistemas complexos. Que tenho eu então com o 11 de setembro? O macro e o micro se fundem numa estranha geografia íntima: o acontecimento 11 de setembro não me deixou esquecer o que estava fazendo naquele dia, ou o contraste entre tudo tornou mais evidente (e importante) minha alegria particular. Estava alegre, lembro-me perfeitamente, muito alegre, daquelas coisas gratuitas sem muita explicação. Hoje? Hoje eu escrevo o que não consigo sondar. E espero que uma hora, também sem razão aparente, a alegria, não sei se aquela, mas enfim alguma forma de alegria, volte. 

grupos vocais

Uma de minhas predileções musicais são os chamados grupos vocais e instrumentais. Na MPB que chegou até meus ouvidos três ganharam relevo: MPB4, Boca Livre e 14 Bis, este não contando mais com sua formação original, com a saída de Flávio Venturini. No caso do Boca Livre, o grupo passou por várias formações, com um único integrante constante, Maurício Maestro, e atualmente retornou à sua formação dita clássica, mas Zé Renato e Claudio Nucci não voltaram a dividir os vocais do grupo. Há dois dias postei casualmente uma canção do Boca Livre, “Dança do Ouro”, e foi o bastante para uma torrente de lembranças da juventude (em que ouvia muito 14 Bis) voltar, e também perceber o quanto gosto do Boca Livre, sempre gostei, um dos grupos vocais mais sofisticados da MPB, a par do MPB4, que funde (confunde) voz e instrumento, como se pode depreender da belíssima e inspirada interpretação da canção citada. Particularmente aprecio a canção “Ponta de Areia” interpretada à capela pelo quarteto. Neste vídeo há uma teatralidade um pouco engessada pelo Fantástico, mas lá estão os rapazes, inconfundíveis em sua potência vocal.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Morangos Silvestres

Morangos Silvestres poderia se chamar Morangos Amargos: a Morte, fria e indiferente, é a grande protagonista de uma narrativa que consiste, do início ao fim, na encenação de um funeral, crônica de uma morte em vida, vivenciada já como companhia, que estende a mão, puxando o médico ancião para si numa das cenas iniciais ― embora falte um pouco de verossimilhança no aspecto um tanto ordenado dos sonhos, enquanto o fluxo das lembranças é por demais lógico, comandado pela razão. Sequer a profissão de médico pode soar como redenção. Há uma espécie de tentativa de alegria, flagrada sobretudo na presença das personagens jovens, mas ela esmaece rápido como as flores, que parecem combinar mais com o tom de velório da narrativa. A memória, festa e funeral, como quer Emily Dickinson, deixa ressoando uma pergunta: em que ponto daquela honrada trajetória (o médico vai receber um título honorífico numa Universidade) houve uma escolha infeliz? Houve escolha? Quando, na festa cercada de amor da infância, a vida, jardim de caminhos que se bifurcam, tomou o rumo da morte, que galgou aquele destino? 

Memory is a strange bell ―
Jubilee and knell.

A memória é um sino original ―
Festa e funeral.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.102-103.

Buenos Aires: Las Calles de Borges (curta)

Luiz Melodia: Cruel (Sérgio Sampaio)


Comemoração antecipada pela independência: 
terça-feira, 06/09, no Complexo do Alemão.

canção do exílio

O exílio da infância está na origem de todos os outros; é quando se aprendeu a língua mãe, pátria que se confunde com o rincão em que se nasceu. Se por acaso este lugar se chamar Espírito Santo, o exilado pode sentir-se íntimo de qualquer coisa que assume o aspecto de uma distância impossível: “Quando tudo passou a ser infinito e nada terra”.  O Espírito Santo continua ali, no mapa ― “Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa” ―, ao alcance de um telefonema, de uma passagem de ônibus, mas o mapa dos afetos confundiu as possibilidades, e viver tornou-se um verbo imperativo. A infância, tempo primevo da estreia num palco exclusivo, quando ainda não se sabe o que é palco ou improviso ou personagem, e está-se ali, brincando de aprendizagem, sob os mais diferentes disfarces, para mais tarde, embora isso dificilmente pudesse ser pressentido, desejar reencontrar no espelho a face, escondida por muitos e por vezes difusos papeis, da infância. Eu não sabia nada da infância, até percebê-la acabando... Ainda e sempre, o poema que abre o filme Asas do Desejo, "Song of Childhood": “When the child was a child, / it did not know that it was a child.” 


Versos citados de Vinicius de Moraes, respectivamente “Pátria Minha” e “Mensagem a Rubem Braga”. Vinicius de Moraes. Nova antologia poética. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

mar à vista da ilha

Quando eu encontrei este verso, mar à vista da ilha, intui que tinha em mãos algo cujo alcance me escapava, mas que era melhor não subestimar ― o mar como tudo aquilo que não sou, o oceano da não-identidade batendo nos costados da ilha-subjetividade, tudo mediado pelo forte sentido da visão. Sim, eu li os românticos, mais os teóricos que os poetas. Nada se firmou mais em meu horizonte que a noção de ironia romântica, o movimento entre o eu e o não-eu, o sujeito e o objeto. Uma ilha ainda é uma ilha, mas se tem o mar à vista, o mar por horizonte, então este mar só pode ser o não-eu apreendido na aspereza da leitura de Fichte, Schlegel e Walter Benjamin. Eu não sei o que fazer com tanto mar para navegar, sem abdicar da palavra “eu”. E há, no plano das ressonâncias profundas, um movimento que se fez sem eu me dar conta. Quando comecei a estudar o Romantismo encontrava-me ainda no mestrado. Hoje, enquanto pensava no blog perambulando pela rua ― algo que muito frequentemente acontece ― veio-me a súbita intuição de que a escolha do verso “mar à vista da ilha” abrigava, numa expressão feliz, a teoria romântica do conhecimento que estudei, e que preconizava a arte como a efetivação da manifestação da infinitude subjetiva na concretude da expressão. Como se o sujeito dissesse: tenho um mar em mim, mas como é custoso navegá-lo!

"Todo abismo é navegável a barquinhos de papel" (Guimarães Rosa)

sublimes imagens da cosmologia; 
imagens de barquinhos; 
durval discos; 
thmari.blogspot.com; 
walter e fernando pessoa; 
mar pintura; 
praia à vista tumblr; 
verbos no imperativo; 
céu azul no rio de janeiro; 
há vida para além do facebook; 
cildo meireles espelho cego; 
barquinhos doces; 
escher; 
alguma coisa urgentemente; 
"tem coisa e cousa"; 
valloton felix; 
often a birden wim mertens;
paulo mendes campos frases;
villa lobos o trezinho do caipira de que se trata?

Nirvana: Something in the Way


Verbete [apanhado aqui]: Weltschmerz («dor do mundo» em alemão) é «o tipo de sentimento experimentado por alguém que percebe que a realidade física não pode nunca satisfazer as exigências da mente. Esta mundividência pessimista era comum entre escritores românticos» como Byron, Leopardi, Musset, Chateaubriand ou Heine.

Álvaro de Campos: "Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo"

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque há também a vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. Ed. Teresa Rita Lopes. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007, p.389.

quem tem a poesia...

Mutatis mutandis, se quem tem a viola pra se acompanhar não vive sozinho, quem tem a poesia  ímpar, díspar par ― está a salvo do vulgar