Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Morangos Silvestres

Morangos Silvestres poderia se chamar Morangos Amargos: a Morte, fria e indiferente, é a grande protagonista de uma narrativa que consiste, do início ao fim, na encenação de um funeral, crônica de uma morte em vida, vivenciada já como companhia, que estende a mão, puxando o médico ancião para si numa das cenas iniciais ― embora falte um pouco de verossimilhança no aspecto um tanto ordenado dos sonhos, enquanto o fluxo das lembranças é por demais lógico, comandado pela razão. Sequer a profissão de médico pode soar como redenção. Há uma espécie de tentativa de alegria, flagrada sobretudo na presença das personagens jovens, mas ela esmaece rápido como as flores, que parecem combinar mais com o tom de velório da narrativa. A memória, festa e funeral, como quer Emily Dickinson, deixa ressoando uma pergunta: em que ponto daquela honrada trajetória (o médico vai receber um título honorífico numa Universidade) houve uma escolha infeliz? Houve escolha? Quando, na festa cercada de amor da infância, a vida, jardim de caminhos que se bifurcam, tomou o rumo da morte, que galgou aquele destino? 

Memory is a strange bell ―
Jubilee and knell.

A memória é um sino original ―
Festa e funeral.

DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.102-103.

14 comentários:

Jamil P. disse...

Morangos Silvestres também trata da morte, mas protagonista, propriamente, ela é em O Sétimo Selo.

Mariana disse...

Jamil, há uma diferença entre a morte personificada de O Sétimo Selo e o que falo aqui, num sentido difuso, em que a presença da morte domina a cena desde o início no sonho do relógio sem ponteiros: isso é a morte, o fim do tempo para aquela vida, um grande nada sem antes, durante ou depois. Aquela cena é terrível, a morte aparece personificada no próprio protagonista, que se vê morto, dentro do caixão. Mais adiante, numa cena onírica, sua antiga namorada oferece-lhe um espelho, e diz-lhe que o rosto dele é de um homem assustado diante da morte: o que ele está vendo no espelho que o assusta tanto? Isso não é uma personificação clássica, mas não deixa de ser uma personificação, pois pelo mecanismo da metáfora e da metonímia, especialmente esta, a morte se incorpora no próprio protagonista.

Não acho, ademais, que Morangos Silvestres "também" trate da morte: este é o tema central do filme.

Mas, é claro, foi o modo como eu senti o filme, a morte pesando mais do que qualquer coisa naquela atmosfera sombria. Trata-se de uma modesta opinião, apenas.

Jamil P. disse...

Interessante o seu ponto de vista, Mariana, embora eu não concorde com ele. Acho que a morte está presente, mas que o filme não gira em torno dela. Já li algumas críticas, inclusive o próprio Bergman comentando a obra, e em nenhum momento há uma afirmação tão categórica como a sua. Por isso, fiquei bastante surpreso.
Mas, enfim, se você sentiu assim, não há o que discutir. É a riqueza de Morangos Silvestres, suscitando interpretações diversas.
Fico feliz que você tenha assistido e gostado (se é que eu a compreendi).

Mariana disse...

Jamil, acho a discordância uma coisa muito saudável: as pessoas que mais nos desafiam são as que discordam de nós. Repare que o comum, nos blogs mais autorais, é não discordar, para não melindrar o administrador e tal, para não espantar o leitor etc. Mas, se existe o blog e o espaço do comentário, acho interessante a discordância.

Quando discordaram de mim, aqui ou ou em outras situações, foi que de fato as coisas saíram de seus eixos, trouxeram novas possibilidades.

A questão do personificação é que a gente estuda para preparar aulas que os alunos costumam achar chatas e aborrecidas, e se entreolham perguntando: mas por que estou estudando isso, meu Deus? Para um dia, talvez, discutir os limites da personificação numa película... O que eu quis dizer é que o filme opera uma fusão interessante de personificação e metonímia. Ou, por outra via, que eu senti a morte mais que qualquer outra coisa no filme: ela grudou naquele senhor desde o início. A cena final, repare, curiosos olhos abertos expectantes. Á espera de quê? De quem?

Bem, costumo ler o que as pessoas dizem e tal, até para não passar por desinformada, mas dou valor também ao modo como a obra afeta minha sensibilidade, o tipo de envolvimento que suscita. Se eu gostei? Claro que sim.

Abraço.

Luiz disse...

Mariana, fiquei super feliz de ler este seu post sobre o Bergman, ele corresponde no cinema o que a Clarice representa para mim na literatura: tudo. Estou fazendo a coleção sobre Cinema Europeu da Folha e comprei o filme. Fiquei com vontade de rever, já assisti a esse filme pelo menos 4 vezes. E tenho outra vesão da versátil dele aqui em casa (rs).
Bom, adorei as posições de debate, tanto a sua quanto a do Jamil. Eu queria dizer apenas que não é possível pensar o Bergman sem a questão da morte, isso é claro. Basta pensar que em todos os seus filmes ela está presente: Morangos silvestres, Fanny e Alexsander, A hora do lobo, O olho do diabo, A fonte da donzela,Gritos e sussuros e tantos outros, posso parar por aqui, acho....rs. Também acho que a morte em Morangos silvestres aparece de maneira diferente de como ela se encena em O sétimo selo, mesmo porque são filmes que dizem respeito a contextos muito diversos, a morte para um homem, um intelectual solitário no fim da vida (Morangos silvestres) e a morte, inclusive personificada, para um grupo num contexto medieval, salvo engano. Concordo com o Jamil quando ele diz que o filme abre-se para as interpretações e creio que v. não quer ser categórica num post de cerca de 30 linhas, mas também não dá para relativizar tudo, a gente acaba por generalizar e apontar o que mais chamou atenção da gente seja do livro ou do filme. Li certa vez, que o filme foi comparado ao Em busca do tempo perdido, de Proust, a questão da memória, do retorno, do acerto de contas. Para a crítica cinematográfica o filme é sobretudo um ensaio sobre a velhice, fazendo um par com Umberto D., de De Sicca e Viver, de Kurosawa, filmes que representam a velhice e a problematizam. Já para o Bergman, o filme é também ....

Luiz disse...

..."a insuficiência no jogo da vida, a pobreza, o vazio, a ausência de perdão". Bergman diz em seu livro Imagens, que este é o vetor do filme. Tanto o que diz Bergman, como o que ressalta a crítica e poderia acrescentar aqui o que eu penso: apontam para uma tensão entre a negatividade e a afirmação da vida.A memória, o envelhecimento, os morangos, tudo no filme, fala desse jogo de existir, de se fazer, e no fim da vida, esse jogo se dá sem dúvida pelo peso do fim: o sonho com a própria morte não é gratuito, basta pensar na centralidade da cena nas discussões críticas. Obrigado por trazer Bergman para o seu espaço. Amei e acho que me extendi, mas Bergman significa quase tudo para mim no cinema, na minha vida. Vamos comer Bergman? (parodiando a frase da Calcanhoto, vamos comer caetano.)Beijos!!!

Jamil P. disse...

A última vírgula no meu comentário acima foi um lapso, pensei em uma coisa e escrevi outra.
Concordo plenamente, Mariana, a discordância é salutar, servindo-nos de base para o aprimoramento etc. E o campo semiológico, como sabemos, é um dos mais férteis para isso.
Quando se fala da vida, evidentemente que a sombra da morte estará sempre à espreita. Para mim, Morangos Silvestres tem a ver mais com aquela do que com esta, ao contrário de O Sétimo Selo.

Professor Maurício Fernandes da Cunha disse...

Cara Mariana,

Há tempos que não vejo o filme. Lembro-me de que na época tinha gostado bastante e tinha me deixado a impressão de que falava, mais ainda do que o espectro da morte citado por você, sobre a profunda solidão, um tratado sobre a velhice. E me ficou a interpretação magistral do ator que viver o professor.

Abraço!

Mariana disse...

Luiz, vamos comer morangos silvestres, a valer? Os que trazem vida, como promete o título, se bem que seja tradução da tradução, né? O título promete isso, mas a morte, para mim, domina, dá o tom, a partir do momento em que a possibilidade do amor se esvai daquela vida.

Eu gostei do que li neste texto curto, e troquei "infância" por "morte":

"A posse de sua mulher por outro homem já importa pouco. Isak é frio. A combinação de 'Is' (gelo) e 'Borg' (fortaleza) foi apenas uma coincidência, como acentuou o próprio Bergman em seu livro Imagens. Como se estivesse morto. Uma das primeiras cenas do filme é seu sonho. Ele se vê num caixão. Depois se prepara para viajar de Estocolmo até Lund, onde receberá o título de Doutor Honoris Causa em uma universidade. Esta cerimônia parece extremamente fúnebre. A sua mãe também é fria. O seu filho também é frio e deseja morrer. Qual a origem dessa frieza? No filme a mãe de Isak sente frio no ventre. Isto remete a uma passagem autobiográfica de Bergaman: 'Eu tinha a impressão de que certas crianças nasciam de úteros frios'. A chave explicativa é, portanto, a infância."

Lincoln Secco, http://www.mnemocine.com.br/
cinema/crit/morangossilvestres.htm

Porque foi exatamente como você fala que eu senti o filme, por uma ótica muito clariciana, mas em vez da Clarice eu citei a Emily, pois este poema dela sempre me perturbou muito, e eu titubeava em postá-lo, mas eis que ao escrever o post a memória dele me veio plena, e então eu já sabia o que queria dizer.

Nem estava prestando atenção nesta coleção da Folha, já tenho alguns títulos em casa, mas acho que vou comprar algumas coisas, se bem que "Rocco e Seus Irmãos" eu não volto a assistir.

A Clarice, sim, voltando. É justo o que a gente conversou sobre o sue capítulo, o embate existencial entre vida e morte. Por exemplo, aquele conto fantástico, "A Partida do Trem", em que a Ângela Pralini ainda tem a chance de escolher para si o oposto da vida da Dona Maria Ritinha, e está abandonando exatamente... um homem frio! Já aí há qualquer coisa de aflitivo na Ângela, e o mesmo par se repete entre a nora Marianne e o ancião Isak (ancião é um termo um tanto nobre, mas não encontro outro), ela não querendo repetir-lhe os erros, mas indo ao encontro do filho, que diz ser exatamente como ele, tendo que escolher entre morte (aborto) e morte (casamento) ou abrir mão do amor...

(continua)

Mariana disse...

É claro que o campo hermenêutico (das interpretações) é de embate, discordância, mas sobretudo acho que o modo como o filme afeta quem assiste. Então é claro que você disse tudo: não pretendi ser categórica, menos ainda num post curto, mas sabia do que risco que estava correndo.

Você diz do embate existencial, com que concordo, e que na velhice necessariamente o que vence é a negatividade. O que me pareceu foi que, em retrospecto, a negatividade dominou aquela existência, só isso: a vida daquele homem foi uma imensa negação da vida. Por isso não o vejo ao final tendo uma comunhão com a vida, apesar do tom humanista que o roteiro pretende dar, mas com a própria morte. Naquela cena do berço, há muitas aves sombrias voando, e de repente a câmera foca nos galhos da árvore que fazem um estranha combinação: por alguma razão, me veio "O Corvo" do Poe, algo que está ali, desde o início, como um signo, e que não vai abandonar o protagonista.

Então, não sei se concluo ou inconcluo, eu é que agradeço o seu olhar sobre como o filme se cravou em mim (vi O Sétimo Selo faz muito tempo...), que tem a ver com as coisas que estava lendo da Clarice, e que de repente tive que deixar de lado, não sei por quanto tempo, e que o filme trouxe de volta, a negatividade falando mais alto que a afirmação da vida. Será que em todas as vidas isso se dá assim? Não sei.

Bom saber disso, essa importância que o Bergman tem para você (vou prestar mais atenção nele rs). Eu me diluo mais entre os autores, e para mim "Asas do Desejo" tem qualquer coisa de magistral. Neste sim a vida, apesar de tudo, consegue sobrepujar a morte. Quando assisti, muita coisa importante se passou comigo.

Beijos!

Mariana disse...

Jamil, nada demais com sua vírgula. Quanto aos poréns, estamos de acordo. A sombra da morte espreita a vida.

Mariana disse...

P.S. Jamil, aqui está o link da coleção que noutro post você perguntou:

http://cineeuropeu.folha.com.br/colecao.html

Mariana disse...

Caro Maurício,

Talvez eu tenha tingido o filme com notas um tanto sombrias, mas me assustei muito com aquela cena inicial, da rua deserta, o homem que se desfaz, o comboio fúnebre. Quanto a este, me recordou uma passagem do Joyce que tenho inclusive postada aqui,que cotejo com um poema do Bandeira, "Momento num café" (cuja interpretação quase me custou a vaga no Pedro II, pela proximidade com Augusto dos Anjos):

http://thmari.blogspot.com/2010/09/manuel-bandeira-james-joyce.html

Aquela cena inicial, voltando, é muito forte. Ela me fisgou e por ela eu tomei todo o resto do filme.

Não se pode pensar aquele personagem sem uma interpretação forte, mas eram outros tempos, outro o cinema.

Abraço.

Jamil P. disse...

Obrigado pela referência da coleção, Mariana.