Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 10 de setembro de 2011

o caos por henry miller

“Falando por mim, devo dizer que se eu jamais tive alguma esperança, seja escatológica ou de outro tipo, foi Dostoievski quem a aniquilou. Ou talvez eu deva modificar o que disse acrescentando que ele ‘tornou fúteis’ as aspirações culturais engendradas em mim por minha formação ocidental. Minha parte asiática, numa palavra, o mongol que há em mim, permaneceu intacta, e continuará para sempre intacta. Esse meu lado mongol não tem nada a ver com a cultura ou a personalidade; ele representa a raiz do ser, cuja seiva vem de algum antiquíssimo ramo ancestral da minha árvore genealógica. Nesse reservatório insondável, todos os elementos caóticos da minha natureza e do legado americano são engolidos como o oceano engole os rios que nele desembocam. Estranhamente, sendo americano de nascença, entendo melhor Dostoievski, ou antes seus personagens e os problemas que os atormentam, do que se eu fosse europeu. A língua inglesa, a meu ver, é mais adequada para expressar Dostoievski (se a pessoa precisa lê-lo em tradução) do que o francês, o alemão, o italiano ou qualquer outra língua não eslava. E a vida americana, do nível dos gângsteres ao nível dos intelectuais, apresenta paradoxalmente uma imensa afinidade com a vida cotidiana multilateral da Rússia de Dostoievski. Que melhor campo de provas se pode desejar do que esta Nova York metropolitana, em cujo solo conglomerado toda ideia irresponsável, ignóbil e louca floresce como uma erva daninha? Basta pensar no inverno daqui, no que significa sentir fome, solidão e desespero neste labirinto de ruas monótonas ladeadas de prédios monótonos habitados por indivíduos monótonos repletos de pensamentos monótonos. Monótonos e ao mesmo tempo ilimitados!
Embora milhões de nós nunca tenham lido Dostoievski e nem sequer reconhecessem o nome caso lhes fosse dito, ainda assim eles são, milhões deles, figuras saídas diretamente de Dostoievski, vivendo aqui na América a mesma vida ‘lunática’ que as criaturas de Dostoievski viviam na Rússia de sua criação. Se ontem eles ainda podiam ser vistos como possuidores de uma existência humana, amanhã seu mundo terá um caráter mais fantasticamente assolado por demônios que qualquer criação de Bosch, ou todas elas. Hoje essas figuras ainda se deslocam ao nosso lado ombro a ombro, sem assustar ninguém, aparentemente, com seu aspecto antediluviano. Alguns continuam de fato a perseguir sua vocação ― pregando o Evangelho, preparando cadáveres, cuidando dos loucos ― como se nada de momentoso tivesse acontecido. Não têm a mais vaga ideia de que ‘o homem não é mais o que era antes’.

MILLER, Henry. Nexus. Trad. Sergio Flaskman. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.26-27. 

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