Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Caetano Veloso: Coração Vagabundo


Caetano Veloso foi mestre em pinçar da imaginário popular certas sugestões e dar-lhes tratamento requintado. Foi assim com "Chão de Estrelas", de Sílvo Caldas, que pontifica na belíssima "Livros". "Coração Vagabundo" tem seu primeiro registro no disco Domingo, de 1967 (aqui). "Coração Vagabundo", de Lindomar Castilho, consta como gravada em 1970 (aqui): então não teria sido aí que Caetano encontrou a imagem que dá título à sua canção (nem se poderia supor o inverso). No entanto, cotejando as duas músicas (aqui), percebe-se o deslocamento de perspectiva que Caetano Veloso faz, introjetando em si uma voz de mulher: há uma mulher que sutilmente fala na música de Caetano, e o que diz é absolutamente libertário. Já na música de Lindomar Castilho... Em tempo: em 1980, Lindomar matou a tiros sua segunda mulher, de quem havia acabado de se separar, cumprindo pena de 12 anos pelo crime. O amor é um sentimento tão estranho que confunde homens e mulheres. Mas querer guardar o mundo em si (linda imagem) traz consigo a possibilidade de libertar das prisões. 

Coração vagabundo 

Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer

Meu coração de criança
Não é só a lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meu sonho sem dizer adeus
E fez dos olhos meus um chorar mais sem fim

Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim
 

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