Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 27 de fevereiro de 2011

Clarice Lispector: um fragmento (para a Sônia)

É preciso também não perdoar

Uma entrevistadora do programa BBC, Inglaterra, na Hora das Mulheres, falou sobre suas experiências como prisioneira de guerra:
― Quando uma pessoa já experimentou muitos sofrimentos, sabe apreciar as fraquezas e as boas qualidades até mesmo dos próprios inimigos. Por que deve ser nosso inimigo completamente mau, ou a vítima completamente boa? Ambos são criaturas humanas, como o que é bom e o que é mau. E creio que se apelarmos para o lado bom das pessoas teremos êxito, na maioria dos casos.
Sei o que ela quis dizer, mas está errado. Há uma hora em que se deve esquecer a própria compreensão humana e tomar um partido, mesmo errado, pela vítima, e um partido, mesmo errado, contra o inimigo. E tornar-se primário a ponto de dividir as pessoas em boas e más. A hora da sobrevivência é aquela em que a crueldade de quem é a vítima é permitida, a crueldade e a revolta. E não compreender os outros é que é certo.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.137-138. 

9 comentários:

Luiz disse...

...muito forte, mas compreendo essa crueldade que Clarice menciona. Acho quer todos nós já fomos tão massacrados em algum momento que perdoar poderia ser trair a nós mesmos.Obrigado pelas correções em meu último post. Beijo!

Mariana disse...

É por aí mesmo, não dá pra ficar oferecendo a outra face: uma já é o bastante: a face do aprendizado, que pressupõe a disponibilidade, a abertura ao outro. Mas há um limite a esse outro, e é o que a Clarice diz tão bem, que é não trair a si próprio.

Depois passo lá e comento. Beijo!

Mariana disse...

P.S.

... e é o que o Luiz/Clarice diz tão bem, que é não trair a si próprio.

Luiz disse...

Obrigado! Estou sempre tentando esse movimento; ainda que custe caro, acho importante.

josépacheco disse...

ambas estão certas, na verdade. e isso é, talvez, o mais terrível de tudo. porque a entrevistada da bbc está absolutamente certa na teoria: numa teoria omnisciente, que entende todas as fraquezas e todas as razões. mas clarice está absolutamente certa na prática: saber não perdoar é essencial, e é a única maneira de não pactuar com o mal.

sonia disse...

Será que é para mim? Puxa, deu até um arrepio na espinha...rsrs
Caso eu esteja enganada, mesmo assim valeu pelo arrepio gostoso!
Beijos, estou torcendo por você faz algum tempo!

Mariana disse...

:) sim, foi para você!

Obrigada pela torcida. Beijos.

sonia disse...

Mariana, tenho andado entocada, sem vontade de fazer muita coisa a não ser ler O Livro do Desassossego. Estou mergulhada no mundo de Fernando Pessoa como nunca pude estar no de qualquer outro ser humano (somente,talvez, no de Kafka e Clarice). É como se minha vida real estivesse acontecendo na Rua dos Douradores, em Lisboa! Se não leu, aproveite a primeira oportunidade depois da sua tese e se dê esse presente! Beijos

Mariana disse...

Sônia, acho tão forte isso que você diz... esse mergulho, esse viver a obra. Não sei se já fui tão longe, embora tenho ido bem longe.

Já mergulhei em Fernando Pessoa, pra valer, em Kafka, em Clarice, em Borges, em Guimarães Rosa. Mas nunca consegui mergulhar em "O livro do desassossego" (tenho-o aqui comigo). Leio-o com certa cautela, mas alcanço seu poder libertador, como aliás o que vem da pena de Fernando Pessoa: eu adorei "O banqueiro anarquista", é genial.

De todo modo, há uma fila de livros a me esperar este ano, quero ler no sentido que você empresta ao termo.

Eu já sonhei com Fernando Pessoa, faz tempo, tive-o na minha frente, eu estava numa taberna de Portugal: acho que posso intuir o que você está dizendo.

Obrigada pela sugestão, vou agregá-la aos livros inadiáveis. Beijos.