Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 29 de março de 2011

Albert Ehrenstein: Hoffnung

Esperança

Não tenho poder
De dar olhos a pedras cegas.
Fácil, porém, a uma pobre
Desprezada, velha poltrona,
A quem falta um pé,
Dou alegria,
Sentando-me nela suavemente.

Sejam doces, ó Fortes!
E, reunindo poder à coragem,
Logo, quais santas, as pessoas serão
Desextasiadas de pobreza podre
E na sua existência
Os deuses morreram,
Encontram o céu.

Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.62-63. Edição bilingue ilustrada. 

4 comentários:

Luiz disse...

Adorei!

Mariana disse...

Os dois primeiros versos são uma descoberta, um achado.

Não tenho poder
De dar olhos a pedras cegas.

Luiz disse...

Sim, achei lindo também esses versos. Essa moça anda traduzindo muita coisa boa para nossa língua, acompanho seu trabalho. Beijos!

Mariana disse...

Bom saber disso, que se trata de uma tradução confiável. Obrigada pela dica.

Quanto ao poema, que forma linda e desconcertante de falar da esperança!

Beijos!