Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 31 de março de 2011

relendo grande sertão: veredas (IX)

“Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Arassuaí, discorreu que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar ― é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então a gente não tem licença de coisa nenhuma.”

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.76. 

2 comentários:

Luiz disse...

Oi Mariana. Não me lembrava desse trecho. Que lindo! Fiquei emocionado. Estou numa fase que me aproximo de novo do Rosa. Não fui para Belo Horizonte, ainda estou em Divinópolis. Então, para trabalhar em Curvelo, toda semana vou para B.H. e de lá sigo para Curvelo. No caminho passo por Cordisburgo e o ônibus para. Fico olhando aquilo tudo: Buriti também. É claro que o melhor daquilo tudo é o Rosa! Beijos!

Mariana disse...

Oi, Luiz. Esse trecho me parece uma reescrita de Dostoiévski, o famoso "Se Deus não existe..."

A questão dos limites. Acho muito significativo a oposição que ele faz: "Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho". Não tendo, é "o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar". Uma vigilância extrema, constante.

Já se sabe que viver é perigoso. Sem o que ele chama de Deus, fica mais, pior, infernal.

Nunca fui a Cordisburgo, e estive tão pertinho, era só tomar um ônibus. Beijo!