Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 13 de março de 2011

Clarice Lispector

O erudito

Ele é agora gerente de uma loja de sapatos. Não porque escolheu, mas foi o que lhe restou. Perguntava-se sempre: onde está o meu erro? O erro em relação a seu destino, queria ele dizer. Não há grandes motivos a procurar no fato de alguém ser gerente numa loja de sapatos. Mas uma vez que ele mesmo se pergunta e estende sapatos como se não pertencesse a esse mundo ― o motivo da indagação aparece. Por que realmente? Fora, por exemplo, o melhor aluno de História e até por Arqueologia se interessava. Mas o que parecia lhe faltar era cultura histórica ou arqueológica, ele tinha apenas a erudição, faltava-lhe a compreensão íntima de que fora neste mundo e com esses mesmos homens que haviam sucedido os fatos, que fora na terra em que ele pisava que houvera um dia habitantes e que os peixes que se haviam transformado em anfíbios eram aqueles mesmos que ele comia. E até hoje é como um erudito que ele estende sapatos ― como se não fosse em contato com esta áspera terra que as solas se gastam.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.233. 

7 comentários:

sonia disse...

A Clarice tem o dom de colocar numa simples estória o drama mais íntimo de cada um! Eu sinto essa inadequação em relação ao roteiro que acabou por se configurar em minha vida. Fico matutando em como isso acontece sem que a gente se dê conta a tempo de fazer as alterações que nos trariam a chance de realizar todas as nossas potencialidades. Cada vez mais acredito que não temos poder de mudar muita coisa. Tenho uma imagem para ilustrar isso, mas aqui o espaço ficou pequeno...rs
Bom domingo, Mariana!

Mariana disse...

Sônia, se o texto da Clarice já me fazia pensar coisas, seu comentário só fez trazer mais lenha para a fogueira... rs. Tanta coisa dita na sua fala sintética!

Eu também sinto essa inadequação, não obstante tenha feito várias intromissões no roteiro, algumas cruciais. O que eu sou, ou penso ser, é ter alterado o roteiro, mas e se já estivesse previsto no roteiro que ele seria alterado? Aí caímos em Édipo, no que que você coloca, na impotência de efetivamente mudar, apesar de aparentar estar mudando...

Me parece que a Clarice levanta a questão de uma relação de mera exterioridade com a existência que se leva: quanto maior essa exterioridade, esse saber por fora, sem penetrar na matéria íntima e secreta da vida, menor a possibilidade de. De quê? Não sei.

"Fico matutando em como isso acontece sem que a gente se dê conta a tempo de fazer as alterações que nos trariam a chance de realizar todas as nossas potencialidades" - diz você. Acho que é muito fina essa sintonia com a vida, a percepção de poder agir, num dado momento, sobre algo que vai abrir novas possibilidades, e falo isso sobretudo para mim, pois me sinto às vezes muito prisioneira do roteiro. Somos humanos, falíveis, e poder perceber isso é já estar alterando os rumos, a relação com o mundo.

Obrigada pelo comentário. Um bom domingo para você também!

sonia disse...

Imagine a cena de um mico de quintal, daqueles que ficavam presos num varal de arame, por uma corrente, correndo de uma ponta a outra, sem no entanto poderem sair daquele quintal. Esse é o cenário de nosso roteiro pessoal. Temos uma certa liberdade de fazermos algumas coisas dentro de nosso raio de ação, mas do quintal não podemos sair. Então, Mariana, "alterar o roteiro" dá uma "certa" sensação de poder, mas estamos todos sob um poder maior. Saber lidar com isso é a chave que abre as portas da sabedoria! (Estou lendo O Livro do Desassossego e cada vez mais envolvida com o que F.Pessoa escreveu sobre o drama existencial!)

sonia disse...

Mariana,
alterar o roteiro para que? Por que? Como disse Clarice numa carta à sua irmã, quando estava morando fora do Brasil com seu marido que era embaixador (parece que na Suiça, não tenho certeza), "nunca sabemos qual é nossa coluna de sustentação, a viga mestra que sustenta toda nossa estrutura emocional"...então acho mais sábio fazer as pazes com o destino. Se não fizermos nada para interferir, temos a sensação de que estamos agindo como perdedores, mas quem garante que o resultado de nossa interferência será a salvação da lavoura? A vida por sí só já nos traz todas as experiências de que precisamos. Não é necessário nossa interferência. Mas isso eu descobri agora, depois dos 60...rsrs Não recomendo antes da hora! Tenho grande admiração por você, pela sua garra, Mariana.

Mariana disse...

Sônia, suas ponderações são bastante pertinentes, não consigo falar delas sem me permitir um pouco de reflexão. A questão que a Clarice e você levantam é crucial, dentro de nosso drama existencial. Voltarei.

Por ora, fico muito grata pelos comentários e pela sua fala final, acerca da admiração que diz sentir por mim. Me surpreende ter meu valor reconhecido assim à distância. Um beijo.

matheus disse...

mariana, meus parabens, acompanhei sua pequena grande conversa com sonia, seu modo de pensar é muito interesante, tenho certeza que voce faz ideia da potencialidade que tem, seu modo de pensar, escrever se assemelha com o de clarice... foi a primeira fez, hoje, que fisitei seu glog, e, sem duvida, ja virei seu seguidor, acompanharei suas postagens de hoje em diante,até voce alcansar a gloria, que sem duvida, esta bem próxima,quando editar seu livro quero um exemplar em... parabens

Mariana disse...

Matheus, obrigadíssima: pela leitura, pelo comentário, por estar seguindo este espaço e, por fim, pelo super elogio que você me faz. Confesso que me pegou de surpresa, pois eu sou um tanto tímida.

Ouvir isso ("tenho certeza que voce faz ideia da potencialidade que tem, seu modo de pensar, escrever se assemelha com o de clarice...") me deixou alegre, simplesmente, como quem recebe uma recompensa que não está esperando. É uma aposta na escrita, que não sei onde vai me levar. Mas está me trazendo coisas muito legais.

Eu deixei a conversa com a Sônia meio em suspenso, pois vi que prosseguir demandaria uma nova reflexão, a que não consigo responder por ora.

Então hoje eu voltei para casa pensando um tanto de coisa, sobre o blog, sobre a ousadia de escrever, sobre a necessidade de fazê-lo, e dou de cara com seu comentário, confirmando que a vida vale a aposta que nela se faz, todo dia um pouco, como um ritual que sempre se renova. Obrigada!