Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 15 de março de 2011

noite, silêncio e vastidão

Na noite que passou dormi meu sono mais profundo, longo e intenso dos últimos meses, um sono que efetivamente foi um descanso. Apaguei a casa mais cedo, silenciei ao máximo tudo que estava ao meu alcance e, por volta da oito da noite, talvez antes, ouvindo uma música bem baixinho e pretendendo apenas descansar um pouco, cai num sono pesado. Havia trabalhado o dia inteiro, haviam acontecido coisas importantes, a marcha da vida se fazendo, eu me refazendo dos excessos recentes. Parecia-me, em alguns momentos, estar fazendo uma viagem, e sonhei coisas com uma nitidez de cinema. Ouvi o telefone tocar duas vezes: impossível atender. De quando em quando algo em mim se lembrava (lembrando-me) de que eu não havia escovado os dentes (afinal a intenção era apenas um descanso rápido), mas não havia força que me trouxesse de volta para o imperativo todo-dia-devo-escovar-os-dentes-antes-de-dormir. Voltei desse sono com a sensação de que meus dias estão se renovando. E aqui entra o motivo do post: nos últimos dias, distanciei-me deste espaço: sentia o silêncio me envolvendo. Esse silêncio também fala, a contrapelo, sem deixar de ser silêncio, e isso é quase impossível de traduzir sem trair as melhores coisas que se viveu: o labirinto da linguagem é sinuoso, e quero finalizar isso sem  trair o benefício, a dádiva do sono que recebi. 

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