Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 10 de abril de 2011

as portas da percepção (não é LSD)

Clarice Lispector trabalha a linguagem de tal forma que a própria confiança no olhar é abalada. O mundo é tão movente quanto a percepção, encontrando-se submetido a ela. Basta uma passada de olhos aleatória em qualquer das despretensiosas crônicas de A descoberta do mundo: "Então um homem não pode simplesmente abrir uma porta e olhar?"

3 comentários:

Anga Mazle disse...

Uma surpresa agradabilíssima encontar este pequeno texto sobre a Clarice, Mariana. Tão sucinto e tão essencial sobre o estilo da grande escritora. E o melhor, por contraditório que possa parecer, é não encontrar muita citações dela ela aqui, porque é irritante a febre clariciana que tomou conta dos blogs desde que ela foi "descoberta" por alguns blogueiros, twiteiros e outros eiros da internet.

Gostaria de falar mais sobre isso, mas o sono vem chegando como um trem, e não me convém perde esse embarque.

Volto outra hora, inclusive para falar do Mario Faustino,um grande poeta que, infelizmente, não dá o menor ibope na blogosfera.

Beijos

Mariana disse...

Acho que sei o que v. está falando, Ana, Clarice Lispector como recurso de auto-ajuda, uma febre (irritante) que também tomou conta do mercado editorial, multiplicando suas publicações e os ensaios/escritos sobre ela. Isso só faz tirar a força de sua escrita. A escrita dela é para ser vivenciada em sua nudez.

Ah, o Mário Faustino... ele se tornou imprescindível.

Outro beijo.

Mariana disse...

ooops, acho que troquei seu nome :)