Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 14 de abril de 2011

Graciliano Ramos: duro, áspero, intratável

"Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze. Contudo é indispensável um mínimo de tranquilidade, é necessário afastar as miseriazinhas que nos envenenam." 

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 44.ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.12-13.

3 comentários:

Luiz disse...

Adoro esse trecho dos Memórias. Depois de reformular o projeto da tese e saber que o Graciliano não está mais, consigo lê-lo sem tanta cobrança. Pelo visto você ainda está se deliciando com o Memórias.

Mariana disse...

Sempre é assim, a leitura por escolha é mais proveitosa. Coloquei este trecho porque acho bom a gente se lembrar de certas coisas, certas asperezas.

Mariana disse...

P.S. eu não diria me deliciando, antes me angustiando junto com escrita.