Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 12 de abril de 2011

serenidade

Sônia, olá: falei seu nome hoje na sessão de análise. Assim: fui falar o nome da analista e saiu o seu. Ela perguntou: quem é Sônia? Pois é. Aquela troca de impressões acerca da crônica da Clarice, "O erudito", ficou ressoando em mim, e hoje houve um estranho cruzamento entre literatura e vida na sessão, o que é indicativo de alguma coisa que não sei ainda precisar. Só sei que, em vez de falar o nome da analista, falei Sônia. Eu mesma levei uns segundos para me situar em relação ao nome que havia acabado de pronunciar. Talvez seja uma forma de dizer que estou sentindo sua falta por aqui. Ou de dizer a mim mesma que estou precisando de serenidade. Espero que você possa ler este post.

15 comentários:

Luiz disse...

Interessante, porque só de ler os comentários da Sônia no seu blog me identifiquei com ela. Parece ser uma pessoa muito sensível e serena. Estava com saudades de passar por aqui, mas o tempo de quem vive entre 3 cidades fica mais curto ainda. Abraços!

Mariana disse...

Acho que a Sônia vai gostar de ler seu comentário.

Você é sempre bem-vindo. Abraço.

josépacheco disse...

e se Sônia é a Sônia do blogue «Sônia», aproveito a boleia (carona) para escrever que o blogue dela me toca pelo brilho da sua espiritualidade. de cada vez que a leio me sinto captado por essa serena energia que, em geral - isto é: noutros casos - me deixa desconfortável e descrente...

Mariana disse...

... não me lembrava do blog dela, obrigada. É ela sim, e se trata de uma serenidade rara, porque vem da força da pessoa.

sonia disse...

Mariana, José e Luiz: vocês me deixaram com um nó na garganta. Essa serenidade que me atribuem é um milagre. Fui uma das pessoas mais rebeldes e intolerantes que possam imaginar. Acabei me rendendo, e comecei a ver um pouco mais além do meu mundinho.
Abraço aos tres.

Zé alberto disse...

...tão dócil o amor que "a sua rendição" - como a Sónia refere - deixa transparecer para o mundo...uma dádiva que ele (pela nossa voz) agradece.

Abraço!

sonia disse...

Há uma força invisível que faz com que certas pessoas consigam o privilégio de transitar por mundos onde suas almas se afinam. Pode demorar uma eternidade, mas um dia achamos o fio da meada. Acho que encontrei minha família de alma por aqui. Sinto-me abençoada. Obrigada a vocês!

Mariana disse...

Sônia, você falou muito parecido com o Fernando Pessoa: "uma força invisível que faz com que certas pessoas consigam o privilégio de transitar por mundos onde suas almas se afinam".

Eu também acredito nessa força, embora no momento esteja me sentindo um tanto à deriva, procurando meu fio da meada. Eu sei o que é essa coisa da rebeldia, pois luto para amansar a minha: às vezes acho que já nasci rebelde. Só que o preço é sempre alto. Então eu tenho me exercitado neste espaço, pois aqui, na escrita, consigo dar vazão aos meus demônios, aos meus fantasmas...

Esse post saiu muito naturalmente, era mesmo uma necessidade, pois um blog também respira. Por que falei seu nome na análise não sei, há várias possibilidades de explicação.

Família de alma: esteja em casa! Eu acho muito interessante essa coisa que a blogosfera propicia, a troca, a descoberta de afinidades. E achei deveras significativa a troca de nomes na sessão de análise.

Eu é que agradeço: o feedback, as palavras, a companhia, o calor que sinto vir desta troca. Obrigada!

sonia disse...

Estou dando uma "geral" no apartamento e minha mente viajando por onde cisma de ir. Lembrei-me que você gosta de Kafka. Há um livro sobre ele, escrito por um amigo dele, "Conversas com Kafka", de Gustav Janouch. Nas Americanas está por R$27,90. Tenho comprado deles pela internet e sempre a encomenda chega até antes do prazo estipulado. Quando fechei o livro após a leitura posso dizer que lavei a alma! Se der tempo vou limpar a estante e encontrando o "Conversas com Kafka" selecionar alguns textos para postar.

Mariana disse...

Sõnia, dei uma olhada rápida na net e parece que o livro é bom, no sentido de uma melhor penetração na obra de Kafka. E se você diz que lavou a alma é porque deve ser bom mesmo. Tenho com Kafka uma relação sombria, difícil, e nada que li até hoje ajudou a mudar isso. Talvez esse livro, quem sabe...

Muito obrigada pela sugestão. Fico aguardando os posts, mas... acho que vou comprar o livro. Em tempo: a tradução está boa?

Também eu preciso dar mais atenção à minha estante... muita coisa parada.

Mariana disse...

Acabei de encomendar o livro... pelas americanas :)

sonia disse...

Acabei de achar o livro. É uma edição de 1968, tradução de Celina Luz, 1983.

Só um trechinho, para ir aguçando o apetite:

- O coração é uma casa com dois quartos de dormir. Num deles mora o sofrimento, no outro a alegria. É preciso não rir muito alto, sob pena de acordar o ocupante do quarto vizinho.
- E a alegria?Ela acorda quando o sofrimento faz muito barulho?
- Não. A alegria tem o ouvido duro, não ouve o sofrimento no quarto vizinho.

Mariana disse...

Pelo site da travessa é a mesma tradutora:

http://www.travessa.com.br/CONVERSAS_COM_KAFKA/artigo/D84246F1-BAB7-43DE-B45A-D8820C17C763&pcd=028

A alegria tem que ser comedida, o sofrimento, não.

sonia disse...

Não vejo a hora de você ler o livro para comentarmos ;o) Vou terminar o do F.Pessoa e reler esse do Gustav Janouch.

Mariana disse...

Chegará esta semana, logo logo lerei.

Tenho um outro livro sobre Kafka aqui, Lições de Kafka, do Modesto Carone, mas não estou achando no meio da confusão dos livros.

Coragem sua encarar o Livro do desassossego de ponta a ponta.