Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

BLOW-UP (Michelangelo Antonioni)

Em tempos vulgares como o nosso ― de audiência barata ―, assistir Blow-up, um filme antigo, é penetrar num universo sofisticado. Conhecer a gênese literária do filme (um conto de Júlio Cortázar) endossa a aura de tratamento estético de uma tema contemporâneo: o que é a realidade, quando se tornam sucessivos e sobrepostos os filtros e camadas com que ela é dada. Nesse sentido, as lentes do fotógrafo Thomas (David Hemmings), personagem muito bem composto e elaborado, captam a beleza com frieza e distanciamento. Quando a possibilidade de alguma coisa diferente surge nas imagens sucessivamente ampliadas da cena do casal no parque, a ampliação mostra a rarefação da imagem. O fotógrafo retorna e encontra uma prova de que intuiu corretamente, na sequência de imagens, a cena de um crime, mas está sem sua objetiva para registrar a imagem que comprovaria sua intuição. Quando retorna para fazê-lo, a prova não está mais lá ― foi subtraída do seu campo de observação, assim como as imagens captadas por ele no parque, roubadas enquanto ele tentava decifrar o enigma solitariamente no parque. Os dados se completam no mente do fotógrafo e do espectador que o acompanha, mas de mais ninguém. Então, na cena final, na mímica do jogo de tênis, é possível sorrir da imaginação. No parque, as lentes da objetiva, num exercício fino do olhar, flagraram outros lados da beleza. Mas não foi possível decifrá-los. Ampliando-os, sobrepondo-os em camadas de imagens, chegou-se à rarefação, como a sugerir que perto demais tudo se deforma ao olhar. Qual é a distância que a realidade pede para ser vista?
imagem obtida aqui

6 comentários:

Jamil P. disse...

Humm, não sabia desse conto do Cortázar... O Antonioni fala a respeito?

Mariana disse...

Não, não fala. Consta a referência nas sinopses e comentários sobre o filme. Está no livro As Armas Secretas.

Jamil P. disse...

Entendi...
Merci! : )

Pedro disse...

Recentemente eu reli o conto do Cortázar. Agora falta eu ver o filme...

Dessa semana não passa!

Helena Dias disse...

Ora aqui está um dos filmes da minha vida, se é que a expressão faz sentido.
Lembranças de uma época em que tudo tinha a alegria da partilha! Depois vieram os tempos da "excelência" e da "competitividade" e as cumplicidades foram estiolando até morrerem. A maior parte delas.
Ir ao cinema era então, não uma distração, mas uma ato de militância cultural. Ver um filme e não o 'discutir' era impensável.

Quase já não vou ao cinema. Agora, em vez da curiosidade intelectual sobre todos os pormenores do filme, há pipocas e refrigerante. Em vez da escolha do filme pelo realizador, faz-se pelos atores. E eu não me reconheço nesta narrativa...

Mariana disse...

Cara Helena, subscrevo-a.

Também tive minha fase áurea de cinema, de uma experiência partilhada. Quase não vou mais ao cinema, simplesmente porque a experiência, para mim, tornou-se banal. Acho que o estiolamento a que você se refere não é só do contexto, mas do que se oferece ao público (um público duvidoso). Como disse um amigo, as condições de criar foram afetadas, e a publicidade tomou o lugar da arte.

Fiquei aqui pensando qual seria o filme de minha vida...