Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

o fim do cinema

“Decreto que vou escrever um estudo de 120 páginas, com epígrafe do Fukuyama, dedicados à seguinte e simples proposta: o cinema acabou. Estamos todos como meninos de castigo. Ainda não tomei todas as minhas notas, mas creio que o fenômeno se deu lá pelo mesmo ano do livro que me inspirou. Como piorou o cinema, meu Senhor! Tudo é muito ruim. O que foi uma sorte para a televisão que melhora a olhos vistos, para quem não é astigmata ou daltônico. É só não mexerem, por pura novidadice, com o raio da 3D que vem emborcando como cruzeiros italianos capitaneados por indivíduos da mesma raça que já nos deu Fellini, Visconti e Sergio Leone. Até o Scorsese, que fez uns dois ou três filmes razoáveis, já embarcou nessa dimensão, e, como numa história de The Twilight Zone, por lá deveria ficar, apenas recuperando cópias de velhas obras-primas esquecidas, que nisso ele é mestre.” Ivan Lessa.

8 comentários:

Jamil P. disse...

Não concordo, eis que um tanto exagerado. O filme do Wim Wenders, p.ex., sobre a Pina Bausch, é em 3D e é excelente (o próprio diretor, diga-se de passagem, mostra-se bastante interessado e otimista em relação às novas tecnologias aplicadas à 7a arte).
Há sim um declínio no cinema, o que me parece ser ponto pacífico. Só não o pintaria com cores tão trágicas, e até com um certo tom sensacionalista, como faz o articulista.

Mariana disse...

Jamil, talvez o título devesse ser o que você sugere, o declínio do cinema, mas declínio e fim são muito parecidos, se pensarmos na irreversibilidade de muitos processos. Nunca concordei com a tese do Fukuyama, achei-a na época extremamente oportunista e capitalista, mas, o que houve desde então? A confirmação de que o capitalismo reina absoluto, e que talvez estejamos caminhando para algo muito sombrio, não de imediato, mas a médio e longo prazo. Certa vez, numa conferência, o palestrante sinalizou claramente que, ou alguma coisa mudava, ou então estaríamos fadados à barbárie.

Por que falei do capitalismo? Porque, como tudo o mais nele, o cinema também se tornou indústria. Então, como havia acontecido uma troca de impressões entre mim e a Helena acerca do cinema (no post sobre Blow-up), no sentido da transformação por que este passou, postei a opinião do Ivan Lessa, porque, me pareceu, convergia com a nossa, quem sabe mais a minha que a dela, haja vista que interpretei as palavras dela numa direção convergente com a minha opinião.

O Ivan Lessa sensacionalista? Não vejo por que ele precisaria sê-lo... Ele só disse que o cinema atual está ruim, muito ruim. Ele foi pessimista, só isso. E não está sozinho:

http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/rrelogio_do_apocalipse_avancou_1_minuto.html

RELÓGIO DO APOCALIPSE AVANÇOU 1 MINUTO

Em um sinal de pessimismo sobre o futuro da humanidade, cientistas acertaram semana passada os ponteiros do infame "Relógio do Juízo Final", adiantando-o em um minuto em relação a dois anos atrás.

"Faltam, agora, cinco minutos para meia-noite", anunciou em 10 de janeiro Kennette Benedict, diretor do Bulletin of the Atomic Scientists (BAS), em conferência de imprensa em Washington, DC.

Isso representa um passo simbólico para mais perto do fim do mundo, uma mudança em relação à leitura anterior, que indicava seis minutos para meia-noite, estabelecida em janeiro de 2010.

O relógio é um símbolo da iminente ameaça de destruição da humanidade por armas nucleares ou biológicas, por alterações climáticas e por outros desastres de causa humana. Ao deliberar sobre como atualizar a hora no relógio, o Bulletin of the Atomic Scientists concentrou-se no estado atual dos arsenais nucleares em todo o mundo, em eventos desastrosos, como o derretimento da usina nuclear em Fukushima e em questões de biossegurança, como a criação de uma cepa de H5N1 capaz de se disseminar através do ar.

Jamil P. disse...

O dia em que eu ler críticas inteligentes, sensíveis e profundas ao sei lá, cinema europeu ou do Oriente próximo/distante deste articulista, acho que vale a pena discutir a posição dele. Por enquanto, acho que não vale a pena perder tempo.
A "crise" do cinema infelizmente não é só dele. O que vemos aí é apenas um reflexo de uma crise maior, em toda a sociedade etc. Mas esta é apenas a minha opinião.

Mariana disse...

Jamil, posições são posições, não necessariamente precisam de pedigree, senão cai-se naquela esparrela que só fulano, sicrano ou beltrano estão criticamente autorizados a falar do tema A ou B, algo em si bastante acadêmico e tradicional, a opinião autorizada.

Assim como é a sua opinião, é a dele, não precisa ser uma sumidade nesta ou naquela matéria para ter o direito de opinar, dizer o que pensa. Às vezes, de uma opinião não autorizada vem um insight que a posição mais consolidada não traz.

Como sou escaldada nos ranços, trancos e barrancos da academia, nos bastidores, nas paróquias e igrejinhas, eu de fato estou pouco me importando se o fulano é ou não a voz autorizada para falar deste ou daquele tema. O mundo está pululando de opiniões, esta é só mais uma, não é preciso discuti-la ou mesmo aceitá-la. A propósito, lembro-me perfeitamente de uma entrevista do Raduan Nassar, concedida em 1992, quando ele desdenhou do clero literário e de Oswald de Andrade e disse que, em vez de os professores ficarem impingindo carradas de teoria a seus alunos (falava do ensino de literatura), deveriam ensiná-los a pensar com a própria cabeça, supondo que estes mesmos professores fizessem isso. Foi muito marcante ler isso, porque já então eu desconfiava do excesso de intelectualismo das posições e, mutatis mutandis, o que ele falou para literatura vale para o cinema e outras manifestações artísticas. Pensar com a própria cabeça foi um direito pelo qual se lutou muito, aqui e alhures. Vale a pena usufruir dele, o que você está fazendo, eu também, e acredito que o Ivan Lessa.

Jamil P. disse...

Concordo, Mariana, é também o que eu penso. Na verdade, pouco me importa a opinião dele. Só a considero e me dou ao trabalho de comentar porque, no caso, traduz a sua opinião. A sua opinião, esta sim, me interessa, para deixar bem claro. Isso posto, até a entendo, considerando, e acho que isso tem muito a ver, as possibilidades de passar bons filmes em salas de cinema aí no Rio e o fato de você praticamente não baixar filmes para assistir. Por outro lado, acho que também é um pouco de ranzinzice sua, haha. Sabe aquela coisa de 'ah, como no meu tempo era bom! hoje infelizmente não há nada que preste preste...' etc; tese, aliás, veiculada em Meia-Noite em Paris, um bom filme de 2011.

Mariana disse...

Jamil, o que posso dizer, senão muito obrigada pela consideração que você tem com a minha pobre opinião, pobre no sentido de insignificante mesmo. Então, obrigada, mesmo, de coração.

Adoro poder falar de cinema, isso para mim é inseparável da experiência de assistir filmes - tanto que venho aqui e faço meus rabiscos. Ocorre que ultimamente não tenho achado muita graça nos filmes em cartaz.

Minha experiência em Belo Horizonte foi muito rica, assisti filmes incríveis, únicos. Aqui no Rio, nestes três anos que me encontro na cidade, eu posso dizer que vi dois filmes interessantes no cinema: Um Homem Sério (pela temática e pela abordagem) e Um Noite em 67 (pelo registro documental). Nada de o último Almodóvar, o último Woody Allen etc. O último Woody Allen bom a que assisti foi Vicky Cristina Barcelona. O último Almodóvar bom que vi foi certamente algum filme antigo dele. Estão falando bem de A Pele que Habito. Se estou perdendo alguma coisa imperdível, lamento por mim. Talvez uma hora minha disposição mude.

Não é ser ranzinza, implicante ou impertinente. Outro dia, numa reunião de amigos, falávamos animados a certa altura de filmes vários, mas o curioso é que os filmes que vinham à baila na conversa eram filmes antigos, como Invasões Bárbaras e O Declínio do Império Americano... Quer dizer, isso também é sintoma de alguma coisa...

Eu gosto muito do hoje, do tempo de hoje, da vida que tenho hoje. Por isso talvez esteja mais exigente com os filmes e menos a fim de pipoca.

Mariana disse...

Ah, sim, ia me esquecendo: obrigada pela interlocução :)

Jamil P. disse...

Imagina, Mariana, é sempre um prazer falar de cinema ou de qualquer outro assunto com você : )
Boas férias,beijo.