Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Ana Hatherly

A MEMÓRIA DO NOME

A memória do nome
é o paradoxo da verdade moderna
em que o livro
é o monumento da letra.

Na alma secreta da palavra
cada momento é uma prisão
porque a história
de tudo faz monumento
e o livro é o monumento da letra.

Memorizar é obliterar
porque a memória é feita de objetos
reapropriações
instantes figurados.

A memória é invisível
por isso tentamos dar-lhe corpo
de cada momento fazendo uma prisão.

Lembrando esquecemos
a ficção do momento
a ficção do monumento.

O modelo é o contrário do único
e toda a memória é funerária.

Ana Hatherly. A idade da escrita e outros poemas. São Paulo: Escrituras, 2005, p.60

Um comentário:

Menina no Sotão disse...

Uma descoberta interessante para essa noite de chuva. Não lembro de ter lido Ana Hatherly antes. Mas como minha memória as vezes me prega peças não darei tanto crédito a ela. Ficarei eu com a sensação desses versos e irei em busca de mais. Saciar a sede é bem melhor que ocupar-me da memória no momento. rs

bacio