Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 13 de março de 2012

“Nesta casa se vendem ovos frescos”

O texto que segue é uma das melhores recordações de meu tempo de escola. Achei que nunca mais iria colocar os olhos nele novamente, pois que tomei contato com ele num manual didático, circunstância única de que me recordo. Mesmo a lembrança dos detalhes era vaga, e no Google, até então, o máximo que conseguia era encontrar pessoas como eu, procurando o texto. Agora encontrei-o digitalizado, e resolvi transcrever. A autoria foi uma grata surpresa: Millôr Fernandes.

A MENSAGEM

Num mundo em que a comunicação é tudo e o dinheiro sempre pouco, conta-se aqui uma história altamente moral sobre a inutilidade da primeira enquanto se economiza o segundo:
E chamou o pintor e lhe encomendou a placa para anunciar a especialidade do seu negócio: “Nesta casa se vendem ovos frescos”. Além dos dizeres recomendou ao pintor que bolasse uma figura, uma alegoria referente ao ramo. E perguntou quanto era. O pintor disse que ficaria em 50.000. Cinquenta mil o quê?, indagou o comerciante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Ah, não vale, disse então o comerciante. Como não vale?, retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em sua economia. O senhor não poderia reduzir um pouco?, arriscou o comerciante. Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura e os dizeres. Como assim?, disse o negociante? Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa não precisamos usar figura nenhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de galinha, o fato de não ter nenhuma outra ave faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. É certo, concordou o negociante. Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros de menos. Agora também não é necessário dizer nesta casa. Se o freguês passa por aqui e vê: “Se vendem ovos frescos”, já sabe que é nesta casa. Ele não vai pensar que é na casa ao lado, não é mesmo? Certíssimo!, exclamou o comerciante. Então, continuou o pintor, por que colocar “Se vendem”? Se o freguês potencial lê “Ovos Frescos”, já sabe que se vende. Ninguém pensaria que o senhor vai abrir uma casa comercial para alugar ovos ou apenas para expô-los, right? É mesmo!, espantou-se ainda mais o comerciante. Quanto ao “Frescos”, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não é de boa psicologia usar essa palavra. “Frescos” lembra sempre a hipótese contrária, a de ovos “velhos”. Não deve nem ter passado pela cabeça do comprador a ideia de que seus ovos podem ser outra coisa senão frescos. Portanto, tiremos também o “frescos”! Certíssimo!, berrou o negociante, agora profundamente entusiasmado com a dialética do pintor. Façamos, portanto, apenas OVOS. Por favor, desenhe aí só essa palavra, bem bonita, bem clara: OVOS! Só ovos, ovos tout court, ovos em si mesmos, que se vendam pela sua pura e simples aparência de ovos, pelo seu inimitável oval! Então vamos lá, concordou o pintor. Mas antes de começar a usar o pincel voltou-se para o negociante e perguntou, preocupado: Mas, me diga aqui, amigo ― pensando bem, por que vender ovos?
Veja, 1970.

Millôr Fernandes. 30 anos de mim mesmo. São Paulo: Desiderata, 2006, p.218. Texto digitalizado aqui.

10 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns, lembra minha infância na escola, na qual tínhamos, essa e outras no mesmo nível!!!

Eliseu Neves Barbosa Filho disse...

Interessante observar que as palavras do autor do blog seriam exatamente as minhas, caso as tivesse de escrever. O texto abaixo, não sei explicar bem o porquê, mas marcou a minha memória, num lampejo de admiração pela inteligência na sua elaboração.
Nunca me esqueci.

Rogério disse...

Procurei esse texto por muito tempo, obrigado.

Julio Petrucelli disse...

Muito bom saber que outras pessoas também ficaram marcadas por esse belo e inesquecível texto. Eu contava sobre ele a meu filho quando pensei em procurar na Internet e para minha surpresa vi que não só eu lembro com carinho

Marcelo Santos disse...

Meu amigo, lembrava desta crônica, também de um livro de língua portuguesa, da minha antiga oitava série, lá pelos idos de 1978, 1979... Já havia passado pela mesma experiência de procurar revê-la, sem sucesso... Muito obrigado! Bendita lembrança!

Adriana Farias disse...

Esta crônia nunca saiu da minha memória. Eu sabia contá-la de cor mesmo antes de encontrar este blog. Contei para meus filhos algumas vezes. Fantástico Millor Fernandes! E como tem gente que tb se lembra dela... marcou muitas pessoas. não dá pra acreditar!

Mariana disse...

Marcou, demais! Indescritível a sensação que a memória dessa crônica passa.

Unknown disse...

Esse texto fez parte da minha história, é muito criativo e interessante.

Cristina disse...

maravilhoso, reler e reviver os tempos do colégio.
marcou demais e continua super atual .

Elena Lucas disse...

Belíssimo texto! Há tempos procurava... obrigada por postar! Grandes lembranças!