Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


sábado, 17 de março de 2012

Ana Hatherly

A HISTÓRIA DO MUNDO

A história do mundo
é uma autobiografia inventada
é a história
dum Paraíso desencontrado
dum velho-novo-mundo
para sempre ultrajado
pela enorme cintilação do ouro

Ah
como é desigual
a viagem da descoberta!

Entre a cópia e a falta
ante o vexame do despenho
uma pergunta maléfica nos assalta:
que fazer?

A alma 
não tem que fazer nada
dizia um célebre quietista...


Ana Hatherly. A idade da escrita e outros poemas. São Paulo: Escrituras, 2005, p.101.

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