Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quinta-feira, 15 de março de 2012

suave idade

É aquela idade em que a escrita torna mais suave o respirar.

3 comentários:

Marcantonio disse...

Quando o número de catarses liberou o diafragma?

Mariana disse...

Sim, acho que é isso. Há movimentos que só a escrita consegue apreender em seus interstícios: e eles são tão preciosos, tão tênues e fugidios.

Às vezes, tenho uma intuição tão forte sobre algo (ou uma intuição sobre algo tão forte), que sinto vontade de rebobinar o tempo para não perder aquele lampejo. Acho que se passa o mesmo com a escrita: é aquele momento único que encontrou pouso nas palavras, ou que se deixou abrigar nas palavras.

Marcantonio disse...

Isso que você falou sobre a ansiedade diante do lampejo é ótimo. Não raro me sinto como se, ao aproveitar uma vaga no fluxo de veículos, cruzasse apressado uma rua e visse refletido algo fundamental numa poça junto ao meio fio. Deus, não há como voltar! E fico parado do lado oposto, tentando encontrar nova pausa entre os carros, vendo alguns deles dispersarem a poça em altíssima velocidade.

Mas entendo um momento em que um lampejo se torna uma fonte fixa de luz no teto de um cômodo, iluminando uniformemente suas quatro paredes cobertas por imagens.

Um abraço, Mariana.