Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Fernando Pessoa

SONO

Tenho tal sono que pensar é um mal. 
Tenho sono. Dormir é ser igual,
 
No homem, ao despertar do animal.

É viver fundo nesse inconsciente 
Com que à tona da vida o animal sente.
 
É ser meu ser profundo alheiamente.

Tenho sono talvez porque toquei 
Onde sinto o animal que abandonei,
 

E o sono é uma lembrança que encontrei.

Fernando Pessoa. Poesia: 1931-1935. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.213.

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