Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


domingo, 19 de agosto de 2012

lobos

Ontem dormi durante o dia, o que é garantia de insônia à noite. À noite, o sono teimava em não vir, enquanto eu ia lendo trechos avulsos de Deleuze, até não poder mais. A dada altura, comecei a ouvir uma espécie de grito intermitente, desconfortável. Havia acabado de ler um trecho sobre o homem que sonha com lobos, em “Cinco proposições sobre a psicanálise”: “(...) quando o Homem dos lobos sonha com seis ou sete lobos, o que é por definição uma matilha, a saber, um certo tipo de grupo, Freud só pensa em reduzir esta multiplicidade, em reconduzir tudo a um só lobo, que será forçosamente o pai.” Qualquer que seja a riqueza sugestiva do trecho e suas implicações interpretativas, o fato é que a própria contiguidade de tudo deu-me os lobos: os gritos intermitentes que ia ouvindo, no limite do estridente, vinham da rua: tratava-se de um grupo que voltava, vindo muito lentamente e em passos errantes, e um deles gritava a intervalos curtos. Por que o fazia? A quem queriam atingir, aqueles gritos? Ou não queriam nada, apenas eco do insuportável silêncio da madrugada vazia? Nunca poderei saber. Insone ou não, a madrugada é um campo em que lobos correm uivando violentamente. Voltando a dormir, sonhei com outra espécie de lobos, mais familiares e perigosos. 

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