Gosto de imaginar que ilhas significam-se ― fazem-se dizer por signos ― mediante barcos que se aventuram nas águas que as separam, mas também as unem: as águas podem ser oceânicas ou simples veredas, salgadas ou doces, profundas, turbulentas e mais difíceis de navegar, ou arroios cristalinos que escorrem transparentes entre pedras e vegetação de grande frescor. Os barcos, as palavras. E tudo o mais que diz respeito à palavra afeto, no sentido de afetar, atravessar. Escrever e ler são pontas de ilhas que se fazem significar ― os trajetos dependem dos barcos, das ilhas, das águas que as separam. Este blog não pretende nada, exceto lançar barcos que eventualmente alcancem outras ilhas. Barquinhos de papel.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

um belíssimo poema de ana hatherly


Os poemas estão a caminho.
Paul Celan

Os poemas são uma peregrinação
uma crença
que impele o poeta ao corpo a corpo
com o abismo que o cerca

A batalha é infinita
assenta no interesse do acaso
do ocaso
dos infinitos mortos
em cujos ombros subimos
incansáveis

Qual é o prazer do caminhante
senão
o de encontrar a invisível ponte
a ambição de ousar?

A nostalgia é um erro da paixão
O poema é um rio de vozes

Ana Hatherly. A idade da escrita e outros poemas. São Paulo: Escrituras, 2005, p.97.

Um comentário:

Helena disse...

É um dos poemas que mais gosto!

Obrigada, Mariana